sábado, 8 de outubro de 2011

dupla "personalidade"

sou “agente duplo”. E a culpa é dos meus pais. Explico.

logo que nasci, no interior de São Paulo, houve uma disputa acirrada na hora de escolher o meu nome. Meu pai queria Antonio Carlos. Minha mãe, Marcos. Após muita discussão, decidiu-se pelo segundo. Aí, meu pai espertalhão foi no cartório e me registrou com o nome que ele queria: Antonio Carlos. Acho que pensou que dessa forma venceria a pendenga. E todos, sem ter o que fazer, passariam a me chamar pelo nome que ele escolheu.

caiu de bunda no chão.

minha mãe deve ter ficado fula da vida. Acredito que a família inteira ficou. E para contrariar/provocar o velho, passaram a me chamar de Marcos – inclusive meu pai, que com o tempo acabou sucumbindo à vontade da maioria.

resultado: tenho dois nomes. Um, o oficial, no RG, é Antonio Carlos; o outro, o alternativo, jogado no mundo, é Marcos. E essa dupla “personalidade” me obrigou a passar a vida inteira dando explicações para as pessoas.

certa vez, lá na adolescência, conheci um menina bonita. Estava com ela quando um amigo de escola passou por nós:

– e, aí, Antonio?

na hora nem me toquei. Mas a menina sim:

– por que você mentiu seu nome pra mim?

olha, eu não menti. Apenas tinha me apresentado como Marcos, o nome que mais uso por estar mais acostumado com ele. Mas você, se estivesse no lugar da menina, teria acreditado nessa história que acabo de contar aí em cima?

pois é. A menina não acreditou. Achou que eu queria me passar por outra pessoa, que eu havia mentido porque eu devia ter namorada. Enfim, para ela, de repente, eu virei uma farsa. E como farsa, levei um pé na bunda antes mesmo do segundo beijo.

antes e depois desse episódio, enfrentei várias outras confusões por ter dois nomes. E já cheguei a atender o telefone, a pessoa do outro lado da linha solicita falar com o Antonio Carlos e eu, sem pestanejar, respondo: “não tem ninguém com esse nome aqui”.

assim que desligo o telefone me lembro: Antonio Carlos sou eu! Ou não? Na verdade, sou Antonio Carlos só quando preciso ser, quando preciso apresentar meus documentos. No resto do tempo, sou Marcos mesmo. E não por escolha minha. Mas porque meu pai decidiu me registrar com um nome e minha mãe decidiu me chamar por outro. 

depois, ainda querem que eu seja um sujeito normal.

6 comentários:

  1. Identidade... algo que a gente tem, algo que atribuem à gente. A sua última frase fechou o texto com chave de ouro, mas o dilema continua em aberto. Pelo menos você o transformou em literatura. Um abraço.

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  2. Verdade, Érico...
    o dilema continua. E vai continuar para sempre. Já pensei em tentar mudar meus documentos, assumindo o Marcos como nome oficial. Mas vai que eu "mato" o Antonio Carlos e perco parte da minha identidade? Abs.

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  3. Essa sua "dupla" personalidade (aposto que tem mais personalidade perdida por aí) é bem distinta para mim. O Antonio Carlos é aquele que mantenho no pedestal literário, autor do "Contos Diminutos" - tão festejado e lido e relido por mim; já o Marcos é um outro escritor, o do blog e Twitter, talentoso muito e mais próximo/ordinário, menos mito e mais amigo.

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  4. Obrigado, Giuliano...
    mas acho que o Antonio Carlos do "Contos Diminutos" sumiu em algum lugar do passado. Abs.

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  5. Por que blogueiro tem o habito de tratar a si mesmo na terceira pessoa e sempre vem com esse papo de dupla personalidade: a pessoa física e o artista/escritor/filósofo? Aproveita e incorpora também o plural majestático. Assim completa o tipo. Daí pra monstro sagrado literário (!!!) é dois palito. MWAH

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  6. MWAH...
    pensarei sobre isso. Prometo.
    abs.

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