quinta-feira, 6 de outubro de 2011

a morena slow motion

fui ao médico. Como sempre, permaneci na sala de espera do consultório olhando para as paredes por intermináveis minutos. O doutor me atendeu quase uma hora depois do horário marcado. Normal. Extraordinário seria se ele tivesse me atendido pontualmente, sem o nosso cultural atraso.

no carro, voltando pra casa, ouvia “Hello/ Is there anybody in there?/ Just nod if you can hear me”, quando de repente apareceu uma faixa de pedestres à minha frente. Assim, de repente. Resolvi, então, obedecer à nova lei paulistana. E, mesmo sem semáforo no local, parei o carro.

e foi aí que ela surgiu.

uma morena volumosa que, sobre o salto alto, parecia medir quase dois metros de altura. Vestia uma calça jeans grudada às pernas grossas e uma blusa amarela justíssima, com generoso decote “Larissa Riquelme”. Cintura fina, bunda Melancia. Cabelos pretos, cheios e ondulados. O rosto, do alto da testa à ponta do queixo, era protegido por uma espessa camada de maquiagem. Lábios vermelhos. Ah, lábios pintados de vermelho... o clichê da fêmea fatal.

observei cada detalhe da mulher porque não tive como não observar. Enquanto os outros atravessavam a rua apressados, a morena caminhava sobre a faixa de pedestres em slow motion. Deve ter demorado um Oscar Niemeyer e meio até chegar à calçada oposta.

dengosa, sorriu assim à toa pra mim. Eu, encantado e surpreso, retribuí o sorriso, claro. E permaneci admirando o caminhar malemolente da morena até ser despertado pela buzina do carro atrás do meu: fon, fon, fooooonnnnn...

ali mesmo, logo que pisei no acelerador, concluí: as piriguetes são muito muito muito mais felizes do que o resto da humanidade. Cheias de amor pra dar e com a autoestima lá no ponto mais alto do Everest, elas não estão nem aí para a audiência, para o aquecimento global, para a crise na Europa. São dessas mulheres que basta uma noitada boa para se sentirem realizadas.

enquanto aguardava o porteiro abrir a porta da garagem do prédio, ainda pensava na piriguete. E foi aí que presenciei, na calçada, um breve bate-boca entre duas mulheres bem zangadas.

loira desbotada: – Você é mal-educada. Só sabe falar palavrão!

morena de óculos: – E você é uma evangélica fajuta!

loira desbotada: – Ah, vai cuidar da sua vida!

e se virou para ir embora.

morena de óculos: – Isso! Vai embora sua evangélica fajuta!

a loira desbotada saiu batendo o pé no chão de raiva. Eu entrei com o carro na garagem. Não sei qual era o motivo da briga. Mas, após assistir a esse rápido entrevero entre as duas mocreias, confirmei meu ponto de vista: as piriguetes realmente são muito mais felizes do que o resto da humanidade.

em vez de bater boca no meio da rua, atravessam a rua em câmera lenta sem se importar com as dores do mundo.

quero voltar piriguete na próxima reencarnação.

3 comentários:

  1. KKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKK...TMBM QUERO VOLTAR PIRIGUETCHY

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  2. E quem não quer? Só mesmo os muito bobinhos para se opor à exuberância, não apenas física, de nossas piriguetys.

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  3. hahaha...muito bom...eu que sou advogada, e vivo estressada...quero vir tb piriguete na proxima encarnação...e não estar nem tchum para o aquecimento global, pra alta do euro, etc...kkkkkkkkkkkkk
    as periguetes conservam a sexualidade adolescente...viva as periguetes!

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