terça-feira, 22 de novembro de 2011

me dá um dinheiro aí, moço

a louca correu atrás de mim. Segurou com força no meu braço com a mão encardida. Queria uns trocados para comer. 

– me dá um dinheiro aí, moço. Eu tô com fome...

mentia. A louca mentia descaradamente. Estava na cara que queria grana pra cachaça, crack ou algo assim. E se tivesse falado a verdade, eu poderia até ter contribuído com algumas moedas, como já fiz outras vezes. 

se o vício nos humaniza, como dizem por aí, então vamos nessa! Sejamos solidários no vício e não apenas no câncer. 

tem gente que costuma dizer que não dá esmola porque sabe que o pedinte vai usar o dinheiro para comprar pinga. Pergunto: e daí? Qual o problema? Cada um gasta o que tem com aquilo que mais necessita. E eu acho que quem mora na rua precisa mais de pinga que de comida. 

depois do susto inicial, pedi para a louca largar do meu braço. 

– dá um dinheiro, moço – ela repetiu, com voz e expressão de coitada. E, para minha surpresa, acrescentou: – É Natal...

ora, ora, ora, a desgraçada era uma "pedinte profissional". Queria me comover com esse papo de “é Natal”. E se ferrou. Não levou nem um centavo de mim. Se tem algo do qual sou imune é desse tal “espírito natalino”, desse “teatro da bondade” de todo dezembro. 

se quer minha ajuda, tente outro argumento. Jamais essa celebração macabra. 

segui meu caminho. E a louca, babando de bêbada, balbuciou uns palavrões contra mim. Ainda bem. Por um momento, pensei que ela fosse me desejar "Feliz Natal".
 

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