segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

little people


Entorpecidos pelo dia após dia, robotizados pelo mesmo caminho de sempre, aterrorizados pela multidão desatenta que se aglomera nas grandes cidades, quase nunca paramos e observamos os pequenos detalhes que nos rodeiam. Simplesmente passamos. E, apressados, quem sabe deixamos passar a boa surpresa de um ipê florido, de um olhar amigo, de uma pichação amorosa. Foi pensando nisso – na solidão e na melancolia de quem vive perdido no vai-e-vem esbaforido das megalópoles – que um artista inglês resolveu intervir no cotidiano das pessoas.

O artista atende pelo misterioso nome de Slinkachu. É natural do condado de Devon, no sudoeste da Inglaterra. Numa noite de 2006, ele se deparou com um besouro na varanda da sua casa, em Londres, onde vive. O inesperado encontro o fez refletir sobre o “mundo a seus pés”, sobre o chão estéril e áspero das cidades, onde não há nada além de concreto, poeira e lixo. Ali, Slinkachu teve a ideia de inventar uma outra “realidade” e, a partir daí, povoar Londres com minúsculos seres em situações corriqueiras ou absurdas. Surgiu, assim, o “The Little People Project”.

São homenzinhos que medem até 5 milímetros. A maioria é fabricada pela empresa alemã Preiser e vendida em conjuntos de trens de brinquedo. São pintados e modificados pelo artista. Slinkachu ainda acrescenta acessórios, como capuzes e calças jeans. A produção depende do cenário que ele deseja montar. Os homenzinhos, então, são instalados em diferentes localidades – bancos de praças, postes, caixas de correios, bares, banheiros, calçadas, poças d’água etc. – e deixados ali, a fim surpreender e divertir as pessoas, retirando-as, ainda que por alguns minutos, do seu estado autômato. O “The Little People Project” é, ao mesmo tempo, instalação de arte e projeto fotográfico. E foi a partir das fotos das instalações que Slinkachu conquistou fama mundial e passou a expor a sua obra em galerias.

O mundo liliputiano criado pelo artista foi reunido em livro, Little People: The Street Art of Slinkachu. E uma de suas últimas ações foi grafitar caramujos vivos e deixá-los transitar pela capital inglesa carregando os seus homenzinhos. A intenção do artista foi dar movimento às instalações – ainda que lento e nem sempre percebido. Essa é a ideia por trás da obra de Slinkachu: fazer a gente parar, respirar fundo e, mesmo em meio ao inferno urbano das congestionadas metrópoles, prestar mais atenção nas pessoas e nas coisas que orbitam ao nosso redor. Se estiver em Londres, cuidado onde pisa.

Texto publicado originalmente na revista ffwMAG!

Slinkachu: mais fotos aqui 
 

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