terça-feira, 31 de janeiro de 2012

o voto homossexual

a reportagem abaixo foi publicada no jornal francês "Le Monde". 

vale ler e refletir. 

será mesmo que os gays estão debandando para a direita? Será que “dizer-se gay e de direita tem ficado mais fácil”?

 A FRENTE NACIONAL TAMBÉM ATRAI OS HOMOSSEXUAIS
Gaëlle Dupont, Le Monde

O voto homossexual existe, e ele pende fortemente à esquerda, embora essa categoria de eleitores seja tentada, nas mesmas proporções que o resto dos franceses, pela Frente Nacional. A análise publicada pelo Cevipof (Centro de Estudos da Vida Política Francesa), na quarta-feira (28), certamente será examinada com atenção pela direção dos partidos políticos. Isso porque, a menos de cem dias do primeiro turno da eleição presidencial, o voto homossexual tem sido cortejado por todas as alas. 

François Hollande lembrou, no domingo (22) em Bourget, seu engajamento a favor da abertura do casamento aos homossexuais e à homoparentalidade. Quanto a Nicolas Sarkozy, ele parece manter intencionalmente o aspecto vago de suas intenções. François Bayrou é a favor de uma união civil que comporte os mesmos direitos e os mesmos deveres que o casamento, bem como a adoção por casais homossexuais. 

Deve-se lembrar que essa categoria da população é considerável do ponto de vista numérico. Segundo o Instituto de pesquisas IFOP, que realizou a enquete para o Cevipof, os homossexuais e bissexuais representariam cerca de 6,5% da população maior de 18 anos. “Seu peso eleitoral é superior ao da população católica praticante”, observa François Kraus, do IFOP. 

A primeira constatação do estudo foi que a esquerda sai com bastante vantagem nesse eleitorado. O fato de metade das pessoas se definirem como homossexuais ou bissexuais afirma sua proximidade com um partido de esquerda, contra 37% do total dos franceses. Somente 15% se dizem próximos da direita parlamentar. No primeiro turno da eleição presidencial, 49,5% dos entrevistados afirmam que eles votarão em um candidato de esquerda, 9% no candidato do MoDem [Movimento Democrata], 22,5% em um candidato de direita e 19,5% em Marine Le Pen. Além disso, esses eleitores têm mais certeza de suas escolhas, e são mais constantes que os outros. 

Essa preferência pela esquerda não surpreende: os direitos dos homossexuais avançaram sobretudo sob governos dirigidos por socialistas (descriminalização definitiva da homossexualidade em 1982, retirada da lista de doenças mentais em 1983, criação do Pacs [união civil] em 1999). O mais surpreendente foi a atração pela Frente Nacional, pouco inclinada ao progressismo em matéria de costumes. 

“Os homossexuais não formam um eleitorado monolítico cujas escolhas eleitorais seriam exclusivamente determinadas por sua orientação sexual”, observa o Cevipof. “É a prova inegável de que a integração completa dos homossexuais na sociedade francesa está atingindo sua meta”, concorda Hussein Bourgi, presidente do coletivo contra a homofobia e militante socialista. “São franceses médios como os outros, com as mesmas preocupações”. Uma outra explicação é o sentimento de insegurança, que tem se intensificado. “Alguns se deixam seduzir por Marine Le Pen, pois sofrem diariamente com a homofobia e estão mais sujeitos a agressões do que a população média”, analisa Stéphen Corbin, porta-voz da federação LGBT (Lésbicas, Gays, Bi e Transexuais). 

A presidente da Frente Nacional se esforça para capitalizar esse sentimento. Em dezembro de 2010, em Lyon, Marine Le Pen se comoveu com o destino dos homossexuais que vivem nos bairros, vítimas das “leis religiosas que substituem as leis da República”. Outro sinal de relativa abertura é o fato de que a anulação do Pacs não consta no programa da candidata. Mas a Frente Nacional continua bastante contrária ao casamento entre pessoas do mesmo sexo. “E por que não autorizar a poligamia!”, disse Le Pen em junho de 2011. Para Bourgi, as associações de defesa dos direitos dos homossexuais “provavelmente não tem pregado o suficiente”. 

“É nosso dever lembrar que a rejeição à homossexualidade sempre fez parte do discurso da Frente Nacional”, acredita esse militante. Segundo o Cevipof, a teoria da “direitização” do meio gay, defendida sobretudo por Didier Lestrade, fundador do Act Up, em um ensaio a ser publicado no início de fevereiro (“Por que os gays passaram para a direita”, Ed. Seuil), é em parte invalidado por esses resultados. A pequena adesão à direita parlamentar permanece estável desde 2007. A extrema direita avança, mas embora o voto na Frente Nacional fosse superior ao dos heterossexuais em 2007, hoje ele é comparável ao do resto da população. 

No entanto, à medida que o fato de ser homossexual vai se banalizando, a liberdade de expressão avança. “Dizer-se gay e de direita tem ficado mais fácil”, analisa Corbin. “Há cada vez mais políticos de direita saindo do armário. As pessoas estão perdendo seus complexos.”
 

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