sábado, 28 de janeiro de 2012

Precisamos falar sobre Tilda Swinton


Tilda Swinton

imagine o grau de desespero de uma mãe que prefere ouvir o som infernal de uma britadeira ao choro incessante do filho recém-nascido. 

essa cena está em “Precisamos Falar Sobre Kevin”. Assisti ontem e não entendo como o filme e, principalmente, Tilda Swinton não estão na corrida pelo Oscar. 

aqui, nem se trata de injustiça. Mas de cegueira mesmo. Ou será que os caquéticos da Academia ficaram com medinho do desmiolado Kevin? 

o filme da diretora Lynne Ramsay é adaptação de livro homônimo, escrito por Lionel Shriver e lançado em 2007. Para criar essa história, dizem que a escritora estudou dezenas de casos como o de Columbine – quando dois garotos se suicidaram depois de matar 12 colegas e um professor numa escola do Colorado. 

Kevin é inspirado nesses garotos. Mas é Tilda Swinton, no papel de Eva, quem faz o filme realmente valer a pena. É Tilda a mãe acabada que tenta entender Que Porra de Monstro é Esse que Eu Gerei?! E a atriz nem precisa falar muito para mostrar o seu sofrimento. 

sua dor está estampada em seus silêncios, em suas expressões, na relação conturbada que tem com Kevin. 

acho que as mães até acabam se reconhecendo em Eva. Porque acho que não existe mãe que, embora ame o filho, não tenha sentido vontade de jogá-lo pela janela em um instante de impaciência. Ou, ao menos, abafar seu choro com o barulho de uma britadeira. 

seria Eva cúmplice da atrocidade cometida pelo filho? Seria ela a grande culpada? Ou foi Kevin que veio ao mundo com "defeito de fabricação"? 

(assisti "Precisamos Falar Sobre Kevin" depois de assistir "Os Homens que Não Amavam as Mulheres". Deste último, só lembro que é longo, muito longo, e da atriz Rooney Mara).  

Uma atriz extraordinária, atraída pela alienação 
Por Charles Isherwood (NYT) 

"Vivo em outro planeta, felizmente, e lá fazemos as coisas de forma diferente", diz Tilda Swinton, tomando chá em Manhattan. E essa atriz de aspecto singular de fato irradia um certo aspecto extraterreno, derivado da sua beleza andrógina: a pele luminosa e quase translúcida, os traços faciais elegantes, o movimento arquitetônico dos cabelos louros, a compleição franzina. Mas, quando Swinton fala, ela se torna inequivocamente humana. 

"Vivo numa parte da Escócia onde as pessoas têm mais propensão a falarem dos seus problemas com pulgões [do que sobre cinema]", diz ela. Apesar da carreira em ascensão -ela ganhou o Oscar de atriz coadjuvante em 2008 por "Conduta de Risco"- Swinton vive o ano todo na Escócia com seus gêmeos adolescentes e seu companheiro, o pintor Sandro Kopp. 

Seu filme mais recente, "Precisamos Falar sobre o Kevin" (com estreia prevista para este mês no Brasil), é um psicodrama sobre uma mãe cujo filho comete uma atrocidade que a faz se sentir alienada e cúmplice. 

Dirigido pela escocesa Lynne Ramsay ("O Lixo e o Sonho"), o filme exerce uma atração alucinatória, em parte porque se baseia mais nas imagens do que na linguagem para nos levar para dentro da espiral de pensamentos da protagonista. 

"Para mim, isso é uma graça", diz ela sobre a abismada confusão da personagem. "Estou realmente interessada no silêncio. E na falta de articulação também, que não é a mesma coisa que o silêncio." 

A ideia também ecoa no desempenho discretamente carregado de Swinton em "Um Sonho de Amor" (2009), em que ela interpreta uma russa no mundo da alta sociedade italiana. Sua personagem é igualmente introspectiva, até que um despertar sensual altera sua vida. Swinton, 51, se diz atraída por personagens confrontados com momentos de crise. 

"Gosto de isolar o espírito de um momento, em particular o momento em que o 'eu' que eu fui é forçado a mudar", diz ela. 

Robert Salerno, produtor de "Kevin", diz que "Tilda faz, quase sem palavras, a plateia sentir a dor que a personagem atravessa". 

Filha de um condecorado oficial do Exército britânico, a atriz estudou literatura em Cambridge e escreveu poesia. "Escorreguei para o teatro por causa das companhias que eu tinha", conta. 

As primeiras incursões nos palcos, incluindo uma rápida passagem pela Royal Shakespeare Company, a convenceram de que o teatro não era sua praia. Quando ela conheceu o cineasta Derek Jarman, a dupla formou uma colaboração artística que duraria até a morte dele, em 1994, por complicações decorrentes da Aids. Mas foi o papel-título de "Orlando" (1992), de Sally Potter, como uma personagem que muda de sexo, que atraiu as atenções do mundo. 

Após sua aclamada atuação no independente "Até o Fim" (2001), outras propostas começaram a surgir. Swinton parece satisfeita por deixar sua carreira seguir sem um rumo consciente. "Meu hábito", diz, "é a dependência da relação com o cineasta - é para isso que estou nessa". 

Ela e o diretor Luga Guadagnino planejam refilmar "A Mulher do Século" (1958). É difícil imaginá-la como a extravagante protagonista Mame, mas ela sempre regressa à ideia de que todo comportamento humano é uma espécie de atuação. 

"Ao começar a imaginar ou notar como somos todos inescrutáveis uns para os outros, é daí que veio o meu interesse em querer me tornar uma artista." 

Entrevista publicada na “Folha” (23/01/2012)

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