sábado, 24 de março de 2012

Crô e as bichas pintosas


no último capítulo de “Fina Estampa”, a bicha pintosa Crodoaldo Valério ficou rica e criou uma associação para defender as bichas pintosas. Segundo Crô, as bichas pintosas são as que mais sofrem preconceito, até no meio gay.

esse final, creio eu, foi uma resposta do autor, o Aguinaldo Silva, às críticas que recebeu por parte da militância LGBTT por criar mais uma bicha pintosa estereotipada para a teledramaturgia brasileira.

concordo com o Aguinaldo. As bichas pintosas são mais perseguidas mesmo – principalmente por se exporem mais. E para deixar isso bem claro, o autor abusou dos xingamentos. Crô, a bicha capacho, passou a novela inteira sendo humilhado pela psicopata Tereza Cristina e ofendido pelo motorista homofóbico Baltazar.

o irônico é que, ao mesmo tempo em que são mais discriminadas, as bichas pintosas também são mais palatáveis para o público em geral. E o sucesso do Crô é prova disso.

o caricato personagem caiu no gosto popular. Muito devido à interpretação do Marcelo Serrado. Mas também porque o público em geral sempre prefere ver bichas em tom de galhofa, de comédia.

isso no mundo do faz de conta da TV.

do lado de cá da telinha, a coisa muda. Na vida real, esse mesmo público em geral que se divertiu rindo do Crô costuma agir como Tereza Cristina e Baltazar, e procura manter distância segura das bichas pintosas.

ou você nunca ouviu alguém dizer: “Quer ser gay, ok. Mas seja discreto. Não dê pinta por aí. Não fique de sem-vergonhice em público”?

assim é: na novela pode. Aqui fora, não. 

*****

pra finalizar, reproduzo uma declaração do João Emanuel Carneiro, autor de "Avenida Brasil", a próxima novela das 9: "Tem de se formar novos novelistas, e estamos numa hora em que vão aparecer vários novos, porque a televisão precisa deles, uma geração que fez muita novela está ficando um pouco mais velha e tem de ser substituída." 

pelo que se viu em "Fina Estampa", com dramaturgia bem capenga, acho que chegou a hora de Aguinaldo Silva ser substituído. 
    

2 comentários:

  1. Vejo diferente. Sempre existiu um preconceito por parte das pintosas contra aqueles que não dão pinta. Eu sofri este preconceito, não só por não ser pintosa, mas por não me atrairsexualmente por elas. Se um cara der a mínma pinta, eu brocho. E por isso quando eu era novinho muitos me chamavam de preconceituoso e de reprimido, pois achavam que não era normal eu ser assm, que eu estaria me contendo. O fato é que detesto ambientes gays e a própria palavra gay pelo que trazem de pinta, frescura etc. E não existe preconceito nenhum nisso, pois não gosto de pintosas pela mesma razão que não gosto de peruas e patricinhas: não gosto da futilidade, da fala mole etc., seja uma bicha ou uma perua.

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  2. Espero que o personagem gay de Avenida Brasil não seja como o gay de A Favorita escrita pelo mesmo autor (que terminou a novela com uma mulher).

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