sexta-feira, 23 de março de 2012

é preciso redesenhar o mundo


Q Drum

É só ouvir a palavra DESIGN e as modernetes arregalam os olhos de cobiça, sentem uma comichão no ego e logo pensam em popstars como Philippe Starck ou Karin Rashid. Há outros, dezenas de outros designers purpurinados que fazem do mundo um lugar mais bonito e colorido, criando novas formas, reinventando texturas, seduzindo o nosso olhar. Mas o design não se limita em converter cadeiras em “obras de arte”, luminárias em objetos de decoração, espremedores de laranja em esculturas. Esse é apenas o lado mais espetaculoso do design.

É o que sempre fez – com admirável engenhosidade, devemos reconhecer – a empresa do Steve Jobs, o gênio que transformou tecnologia em fetiche. Repare no que afirma o inglês Deyan Sudjic, autor de A Linguagem das Coisas (Editora Intrínseca, 2010): “A Apple pode até não ter a tecnologia mais avançada, mas a embala de um jeito desejável e sedutor.” Alguém aí, louco de pedra por um iPad, duvida? Sudjic é diretor do Design Museum, de Londres. E, por isso, sabe das coisas. E, tanto sabe, que provoca: “A inutilidade é, ao que parece, a qualidade mais valorizada. Assim os designers aspiram a ser artistas.”

Mas, sejamos justos. O design tem outras mil e uma utilidades além de enfeitar a doce vida das pessoas e, como acredita Sudjic, estimular a nossa angustia consumista. O design pode, por exemplo, salvar vidas – ou, ao menos, minimizar a penúria de milhares de desamparados que vivem nas periferias do mundo. E é essa a ideia central do movimento Design for the Other 90%.  

No site do movimento, somos informados de que 90% da população do planeta têm pouco ou nenhum acesso a produtos e serviços que, para muitos de nós, são triviais. E quase metade desse enorme contingente de desassistidos não dispõe nem do básico para sobreviver: comida, água limpa e moradia. Espantado com essa escandalosa realidade? Não deveria. Esqueça o mundo por um instante e pense no Brasil, onde os 10% mais ricos concentram 75,4% da riqueza do país. Desigualdade social: a gente vê por aqui (Ah, e antes que eu me esqueça, esse dado, de 2008, é do IPEA – Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada).

É óbvio. O Design for the Other 90% não vai resolver os graves e históricos problemas sociais e econômicos da humanidade. A iniciativa, no entanto, tem o mérito de evidenciar e incentivar as criações que têm como único objetivo auxiliar as populações mais necessitadas. De quebra, ainda cutuca os deslumbrados. Fala Paul Polak, do International Development Enterprises: “A maioria dos designers se concentra em criar produtos e serviços apenas para a porção mais rica e favorecida, os 10%. É preciso uma revolução no design para atingir os outros 90%.” Boa, Polak!

Ao navegar pelo site do movimento descobrimos dezenas de projetos que estão sendo colocados em prática em várias regiões do globo, divididos em seis categorias: moradia, saúde, água, educação, energia e transporte. Algumas aplicações são incríveis. Atenção para os exemplos: o Q Drum é uma roda-reservatório usada para transportar grandes quantidades de água por longas distâncias; o LifeStraw é um tipo de canudo com filtro, essencial em lugares onde as pessoas não têm outra saída além de beber água diretamente de poços e rios; o Big Boda Load Carrying Bicycle é uma bicicleta com garupa ampliada capaz de carregar cargas mais pesadas; e o Edge Canopy, uma cobertura de lycra, sustentada por cabos de aço, que oferece abrigo e sombra em áreas de calor intenso.

Esses são apenas alguns experimentos bem-sucedidos de ideias mínimas, simples e viáveis com resultados máximos, eficientes e transformadores. E é bem inspirador e emocionante ver designers fazendo uso de suas habilidades técnicas e criativas para produzir soluções que realmente afetam a qualidade de vida de milhares de indivíduos. Quem sabe essas iniciativas não sirvam para alertar outros profissionais da área sobre a necessidade de utilizar o design para missões mais humanitárias – e sustentáveis?

Na entrevista que concedeu para a Folha de S.Paulo, Deyan Sudjic vai direto ao ponto: "Seria mais útil começarem a agir como designers, pensar sobre os problemas reais. [...] O design deveria tratar de fazer perguntas difíceis." Prossegue Sudjic em seu livro: “O design é a linguagem que uma sociedade usa para criar objetos que reflitam seus objetivos e seus valores.”

Se assim é, quais seriam os objetivos e os valores de uma sociedade cada vez mais apegada ao inútil e ao supérfluo, à ostentação do luxo e ao consumo irresponsável?

O FUTURO É AGORA

Ao reunir designers, engenheiros, estudantes e professores, arquitetos e empreendedores sociais em um movimento que busca encontrar soluções simples para questões complexas, o Design for the Other 90% pretende alterar, inovar, transgredir, fazer algo para chacoalhar as consciências. E a gente sabe: qualquer mudança exige vontade, determinação e boas ideias.

Sim, nem sempre boas intenções resultam em boas ideias ou em ideias viáveis. E muitos projetos acabam naufragando, como foi o caso do laptop de US$ 100 criado pelo cientista da computação Nicholas Negroponte. É essencial levar em conta a aplicabilidade, o acesso e – por que não? – a necessidade estética. Afinal, beleza não pode ser exclusividade de quem tem grana para comprá-la.

O arquiteto chileno Alejandro Aravena ganhou, em 2011, o Índex, o maior e mais valioso prêmio de design do mundo, com seu projeto de “meia casa boa” na categoria moradia. Em vez de fazer uma casa inteira de má qualidade para os mais pobres, Aravena e sua equipe projetam a parte mais complicada (estrutura, escada, banheiro e cozinha) e deixam o restante para os próprios moradores finalizarem. É modo criativo de romper com a monotonia das habitações populares.

De qualquer forma, movimentos como o Design for the Other 90% mostram que é fundamental olhar com mais atenção para os marginalizados, encontrar maneiras de ajudá-los a vencer os seus desafios de sobrevivência. E esse momento é agora. Passada a primeira década do século XXI, não dá mais para fechar os olhos e o vidro do carro blindado para o menino que vende chicletes na esquina. É preciso redesenhar o mundo. E os designers podem estar à frente desse movimento.

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Texto publicado originalmente na revista ffwMAG!
 

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