quinta-feira, 19 de abril de 2012

(ciúme) o desejo de amor exclusivo


o ciumento vive em permanente estado de alerta, vigiando cada passo, cada olhar, cada pensamento do outro. Sei disso porque sou um ciumento. Almejo amor exclusivo, amor incondicional. Por isso, vigio de perto o que é meu. Sim, meu! Se está comigo, é meu. Se conquistei, é meu. E como todo sujeito inseguro (atire a primeira pedra quem não é), temo perder o que é meu. 

perder... Ninguém aprende a perder. Desde a infância somos treinados para vencer e cuidar do que é nosso. Eu cuido. Espiono. Interrogo. Invento traições. Invento? Na maioria das vezes, sim. Imagino as mais extraordinárias e estapafúrdias situações de infidelidade. Todo ciumento é meio paranóico. Ou paranóico inteiro. Vive assombrado pela possibilidade de estar sendo enganado. Delírio? Realidade? Isso pouco importa. O ciúme é um monstro que engole e cega todo aquele que tem o hábito de alimentá-lo. E qualquer atraso, qualquer sumiço, qualquer lonjura do outro dispara o coração do ciumento, queima o estômago, azeda o humor.

eu sei, o ciúme não é prova de amor porra nenhuma! Ciúme é ofensa. É ofender o outro com as minhas desconfianças. É duvidar do amor do outro - e a gente sabe que não há amor que resista por muito tempo às dúvidas. Sentir ciúme é sentir-se dono do outro. Eu me sinto assim: dono. E sou do tipo que não permito que ninguém se aproprie do que é meu. Sou o único egoísta filho da puta por aqui?

o ciúme é um sentimento penoso. Talvez o mais penoso dos sentimentos para quem acredita que pode controlar e adestrar o outro como se controla e se adestra um cachorro. Não é assim que nos relacionamos? Querendo o outro aos nossos pés? 

reconheço: esse meu ciúme - como todo ciúme - é mais falta de confiança em mim mesmo. Fraqueza. Afinal, quem se garante não perde o sono com suposições, não beija o outro tentando encontrar indiferença, não investiga o outro em busca de mentiras. 

só o ciumento faz isso. 

e só o ciumento sabe o inferno que é viver entre o desejo brutal de confirmar as minhas desconfianças e o desejo brutal de que essas desconfianças nunca se confirmem.

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