sábado, 21 de abril de 2012

os depressivos são más companhias


não, eu não sou doido. Do tipo que pensa que é Napoleão. Mas sei que tenho a minha porção de doidice. Todos temos, não?

quando contei para algumas pessoas que tinha me consultado com um psiquiatra e sido diagnosticado como depressivo, essas pessoas me olharam com certa desconfiança: “Psiquiatra?!”

foi nesse momento que eu percebi o preconceito contra quem sofre de “doenças invisíveis”. Chamo de “doenças invisíveis” essas que doem na alma, não no corpo, e são bem mais difíceis de serem compreendidas por quem nunca se sentiu desanimado e/ou desesperado ao ponto de desejar cortar os pulsos.

todos entendem uma perna quebrada, mas poucos são capazes de perceber a dor intensa que sente quem está com a “alma fraturada”.

“é frescura”, acusam. E prosseguem: “Tanta gente passando fome no mundo e você aí, bem de vida, posando de coitado.”

não, não é coitadice. É doença. E dói tanto quanto qualquer outra doença.  

para piorar, as pessoas, no geral, preferem manter distância segura dos doidos, dos infelizes, dos insatisfeitos. Temem ser infectadas pela tristeza alheia. Assim é: no momento em que mais necessitamos de apoio, mais somos evitados, largados à deriva.

e é até normal que as "bundas alegres" se comportem dessa maneira. 

numa época em que todos somos pressionados a mostrar que estamos bem o tempo todo, os depressivos são más companhias, são o aviso desagradável de que essa sua felicidade também pode desabar a qualquer instante.

9 comentários:

  1. A depressão é algo inexplicável, são vários os fatores que ocasionam essa situação, porém nem sempre é fácil sair dessa situação.
    Mas creio que pessoas negativas, podem gerar baixo astral...

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  2. Querido, sei bem do que está falando. A depressão é algo que vem silenciosamente e se apossa do nosso íntimo sem nem perguntar se pode ou se deve, daí, começa o estrago. total e absolutamente, ela vem bem devagarinho, mas as pessoas nos olham também com pena, com dó, "olha só coitada, tá depressiva, tomando remédio" ou "nossa nem vou falar nada pra ela senão ela fica pior" e assim por diante, mas sabe, essas pessoas são piores, porque o depressivo assume sua condição e vai á luta, faz terapia, toma remédios e até melhora, n~~ao vive de aparências nem tampouco finge viver feliz para sempre, essa é a diferença e quer saber? tem jeito sim, mas temos que nos esforçar e procurar ajuda sim, e mandar todo mundo tomar no cú, porque pior que tudo junto é ficar estagnado e deixar a situação tomar conta de você. Fica frio, você sai dessa, e continue com o psiquiatra eu tenho um amigo que ficou 3 anos com depressão, tomando remédios, etc, hoje está bem, mas continua a terapia, descobriu que foi a melhor coisa, e é assim, um beijo

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  3. Eu vejo o mundo de uma forma tão desconcertante, como se tivéssemos que dizer a verdade sempre, e não fingirmos ser o que não somos, e isso constrange as pessoas. Até que um dia, resolvi ser uma atriz social, precisei atuar, ser agradável aos olhos dos outros, me enturmar mais do que realmente gostaria, e tô aqui, uma pessoa ansiosa e até com alguma deficiência de humor, pois tomo ansiolíticos e antidepressivo, nunca pensei que chegaria a isso. Mas, agora sei como se sente, é dor de doença; doença que não pede licença pra entrar, assim como acontece com milhares de outras doenças. O conselho que recebo é para me afastar de gente deprê, mas não vejo isso assim como algo fundamental, acho que tenho sim que me envolver com qualquer tipo de pessoa e seguir meu tratamento. Como conviver no mesmo grupo que sempre estive(cervejas, churrascos, viagens)? Não é mais a minha, o mundo é um novo, e eu tenho que mudar minhas relações, talveza continuar com as mesmas amizades tb, mas mudar as relações é fundamental para essa nova etapa de minha vida dar certo. Esse é o conselho.

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  4. Esse texto poderia ter sido escrito por mim. É exatamente isso que acontece mesmo. A gente não pode demonstrar nenhum tipo de problema, se não é considerada uma pessoa baixo astral. Só querem saber da parte boa, dos sorrisos, das compras... nada mais profundo do que isso. Vamos levando a vida, fazer o que :(

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  5. O preconceito com as dores emocionais ( ou doenças invisíveis) é absurdo. Quando você está deprimido você tem que fingir que está ótimo para continuar tendo amigos, emprego, etc... E ao fingir você se machuca ainda mais e fica ainda mais deprimido.
    Os amigos evitam mesmo. Dá raiva. E quando aparecem já vem com a frase na ponta da língua: "Já passou né? Agora você já está ótimo!" Nããããoooo, não estou, mas isso não vai te contaminar, seu merda... Escrevo um blog desde que me entendi com depressão e é anônimo. Não apenas pelos amigos, nem me importo que saibam na verdade, mas pelos "empregadores", as pessoas que te chamam pra trabalhar. No meu caso essas pessoas são modernas, descoladas, tatuadas, falam vários idiomas, muitas delas se entopem de antidepressivos tb mas, se souberem que você passa por uma depressão, imediatamente param de te chamar pra trabalhar. Quem vai querer um depressivo na equipe, não é mesmo? Isso é muiiito foda!

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    1. SIM! É FODA. O que faz certas pessoas estarem sempre "aparentemente" felizes e sem problemas existenciais?? Será a burrice? O que elas fizeram em outras vidas, q. nós nao fizemos? Porra, que merda. Até qdo. isso vai me acompanhar? Pelo que li, depressivos serao sempre depressivos. É como uma tatuagem. Nao sei se algum gen, ou karma...pouco importa.

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  6. Sei bem o que é isso. Até por isso percebo que tenho poucas pessoas que são amigas e que estão verdadeiramente comigo.
    As dores emocionais infelizmente não são respeitadas. Por anos tentei me adaptar ao próximo, tentando fazer o que pensava ser legal, condizente com meus princípios e não recebi o mesmo tratamento em troca.
    As "amizades" nos evitam. Fazem festas e não somos convidados e o pior, só ficamos sabendo na semana seguinte quando um grupinho comenta e você vê que ficou de fora.
    Isso quando colegas de trabalho e chefes utilizam desse "estado" para fazer com que outros colegas pensem que vc não se adequa ao grupo, que não tem competência, porque nesses momentos até a capacidade de organização, criação, dedicação, fica apagada.
    Vivemos meio que marginalizados, nos estigmatizam e muitas vezes é difícil reverter este pré-conceito.
    Quanto aos amigos, se não fossem eles, estes momentos seriam mais difíceis. Ainda bem que eles existem!!

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  7. Sabe, eu sempre tive uma tendência a ficar ao lado de pessoas estranhas, quietas ou depressivas. Nao tenho dúvidas de que elas são mt. mais coraçao, sentimentos e profundidade. hj. em dia, pessoas que riem demais, quero distancia. Essas sim, sao doentes e nao querem enxergar, muito menos se tratarem. Problema delas. Só que vá rir ha 1 km de mim! Gostei de cair aqui, de para-quedas. Santo Google! axé

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  8. Ninguém escolhe estar deprimido.
    Ninguém quer enxergar o mundo por este véu negro que deforma a realidade pintando tudo de dissabor.
    Ninguém quer ser a Justine do Lars Von Trier no filme Melancolia, aquela que se sente `a parte da festa, que está fora dela por que está fora de si, do seu ser na completude, ausente de si mesma e de suas possibilidades e capacidade para transitar na esfera social, mesmo que a festa seja sua, você não está nela.
    E não adianta mostrar uma imagem de uma criança com câncer e dizer, "olha aqui, isso sim é sofrimento, então alegre-se pois você não tem câncer". Não adianta, porque a depressão é o câncer da alma, ela se alastra com metásteses para todas as searas da sua vida e te impede de ver que a Terra é azul, que você tem saúde física e deve se alegrar com isso. Na verdade, quem está sob o véu negro se martiriza por não conseguir glorificar sua saúde com a alegria que deveria, sente uma imensa raiva de si mesmo porque sabe que deveria olhar para a imagem de uma criança com câncer e sair ao Sol bendizendo a vida em regozijo. Mas não pode. Não consegue. E ver isso piora tudo. Não duvido que existem aqueles que desejariam ter uma doença física tão grave quanto essa ao invés de ter a depressão, assim poderiam ao menos justificar socialmente seu martírio, sua miserabilidade da alma e teriam a aceitação alheia. Mas os cobertos pelo véu são os párias da sociedade, aqueles culpados por poder desfrutar a vida e não conseguir, aqueles a quem a sociedade entende que foi dada a escolha para ser feliz mas estes a recusam por falha de caráter, por falta de fibra, por egocentrismo, porque são losers.
    A depressão de fato é química, é como ter uma doença física como diabetes ou úlcera, não é tristeza, não é baixo astral, não é um traço de personalidade ou mau humor, ela é sua incapacidade de produzir serotonina ou dopamina suficiente para manter o humor estável dentro do que clinicamente pode ser entendido como aceitável para alguém ter a mínima saúde psíquica. É como se seu estômago não produzisse os sucos gástricos necessários para a digestão, então isso compromete várias coisas no seu corpo e na sua vida cotidiana, do mesmo jeito que, neste caso o sistema digestivo não processa os alimentos, o deprimido, com falhas na química do cérebro não processa direito suas vivências emocionais, suas relações e isso afeta seu comportamento e sua vida. E do mesmo jeito que nnao adianta fazer yoga, rezar ou fazer pensamento positivo para corrigir uma falha do funcionamento do seu corpo, não adianta fazer essas coisas para corrigir as falhas químicas do seu cérebro. É claro que tudo o que traz good vibes e comportamentos e atitudes saudáveis ajuda, mas não resolve. E então tem-se o contingente cada vez maior de deprimidos-culpados que tentar inúmeras alternativas de melhora e não conseguem superar a doença, se sentindo cada vez pior e desistindo dos tratamentos médicos.
    E tudo volta ao início, ao fato de que não se tem escolha.
    Você não tem a escolha de não ter a depressão, de não ter nascido com ela, no caso dos deprimidos crônicos ou não ter vivido as situações que desencadearam uma crise.
    Mas você tem a escolha de aceitar que tem essa doença e tentar tratá-la.
    E neste caso, a escolha é sua.

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