terça-feira, 29 de maio de 2012

A barata

Foto: Margaret M. de Lange

Era uma barata. Uma gigantesca barata voadora vinda de algum esgoto próximo. Abusada, pousou sobre o rosto dele. Rastejaria silenciosa para dentro da sua boca se não a espantasse a tempo, quando sentiu as patas imundas do inseto fazendo cócegas em seu nariz. Após golpeá-la, ouviu a barata voar para longe. No susto, pulou da cama. A janela estava aberta. Tinha deixado a janela aberta para aliviar o calor e a barata devia ter entrado por ali.
Acendeu a luz. Viu a barata fugindo para a sala. Correu atrás dela. Acendeu a luz da sala. Espiou em volta. A barata havia desaparecido. Pegou a vassoura na área de serviço. Permaneceu imóvel no meio da sala, aguardando um vacilo da barata. Esperta, a barata não apareceu. Moveu móveis. Agachou para procurar embaixo dos móveis. Fechou as janelas do apartamento. Vasculhou cada canto. Moveu mais móveis. Estava determinado a passar a madrugada inteira caçando aquela maldita barata. Revirou as almofadas, abriu portas de armários, arrastava o fogão quando alguém tocou a campainha.
Quem será a essa hora?
Abriu a porta. Era o homem descabelado de pijama. Ao ver o outro – nu, encharcado de suor e com a vassoura na mão – o homem avisou.
Amigo, isso não é hora de fazer faxina.
Ele tentou explicar que não se tratava de faxina. O homem descabelado de pijama o interrompeu.
São mais de 4h. Preciso acordar cedo. E não estou conseguindo dormir com essa barulheira toda.
Ele respirou fundo e, enfim, conseguiu se explicar.
Tem uma barata aqui dentro. A maior barata do mundo! Se eu não matá-la, quem não vai conseguir dormir sou eu.
Sonolento e impaciente, o homem descabelado de pijama perguntou se ele continuaria procurando a barata. Respondeu que sim. Perguntou se ele continuaria fazendo barulho. Respondeu que provavelmente. O homem descabelado de pijama ficou bravo e já estava indo reclamar com o síndico quando, de repente, avistou a barata.
Olha, ela acabou de passar atrás de você!
Ele se virou e, completamente alucinado, perseguiu a barata até cercá-la num canto da cozinha e esmagá-la sem dó com 19 vassouradas. Aliviado e feliz, sorriu e agradeceu ao homem descabelado de pijama. O homem olhou para ele como quem olha para um doido de hospício e foi embora sem nem dizer boa noite.
Após matar a barata, ele resolveu não mais tentar dormir. Tomou um banho frio. Fez café. Bebeu o café e despertou de vez.
Ainda estava escuro lá fora e ele, debruçado sobre o parapeito da janela, fumando um cigarro, tentava entender porque o homem descabelado de pijama havia olhado para ele como se ele fosse um doido de hospício.

*da série histórias inspiradas em imagens.

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