quarta-feira, 30 de maio de 2012

Boa sorte, Ângela!



A relação de Maurício com a mãe era a pior possível. Mulher da pá virada, a mãe era o clichê da megera: oportunista, perversa, mau-caráter, interesseira. Por esse motivo, alguns meses depois que o seu pai morreu, Maurício amontoou suas coisas numa mochila e saiu de casa. Foi morar sozinho. Sua irmã mais nova, Ângela, ficou com a mãe. E havia se transformado em uma ameba. Submetida diariamente à opressão doentia da mãe, Ângela mal saía de casa, mal falava, mal comia – e jamais, em momento algum, sorria.
Quando ia visitá-la, Maurício sentia um nó na garganta ao ver Ângela vagando feito zumbi pelos cômodos da casa. Era ela quem cozinhava, fazia a limpeza, lavava e passava as roupas, regava as plantas, cuidava do vira-lata que a mãe desprezava, mas que mantinha no quintal porque era útil para “espantar ladrão”.
Ângela o chamava apenas de cachorro. 
Ei, cachorro, vem cá. Ei, cachorro, vem comer – ordenava com seu fio de voz.
Livre dos afazeres domésticos, Ângela passava horas debruçada na janela, muda e distante, alheia à vida lá fora, vendo-a deslizar ao alcance das suas mãos, mas sem coragem de agarrá-la. Além disso, gostava de assistir TV – novelas e programas de auditório – e, mais ainda, de ler revistas de celebridades.
Ao observá-la com mais atenção, Maurício notava um ligeiro despertar nos olhos da irmã toda vez que ela folheava as suas inseparáveis revistas. Parecia sonhar acordada. Queria viver feliz para sempre no mundo encantado das estrelas de televisão.

*****

Quando o interfone tocou e o porteiro anunciou que Ângela, sua irmã, estava lá embaixo, Maurício estranhou. Era a primeira vez que Ângela o visitava desde que ele tinha saído da casa da mãe para morar sozinho. E a irmã só costumava colocar os pés na rua em situações excepcionais. 
Oi, Ângela. Que surpresa!
Ela olhou rapidamente para o irmão e, sem dizer uma única palavra, sem esboçar um sorriso, entrou, afobada. Usava um vestido leve e curto, até a altura dos joelhos; os cabelos castanhos escuros eram cheios e desgrenhados; o rosto limpo, sem maquiagem. Ângela aparentava ter menos que seus 24 anos. Era bonita. Sim, era bonita. Maurício, ao observá-la ali, espiando cada detalhe do seu apartamento com o olhar inquieto, redefiniu a imagem da irmã. Ângela, sob o seu aparente descaso, escondia uma beleza extraordinária. Beleza moldada pela dor. E, por isso, única. 
Eu não tenho muito tempo – avisou Ângela. 
Como você está? 
Eu tô bem. Vim aqui porque preciso de dinheiro.
Ângela falava rápido, com urgência. A respiração um tanto ofegante.
Pra que você precisa de dinheiro? 
Você pode me emprestar? 
Posso, claro, Ângela. Eu só queria saber... 
Eu passo aqui amanhã pra pegar.
Nem bem terminou de falar, Ângela, sem se despedir, saiu às pressas do apartamento. Maurício ainda tentou segurá-la. Mas, antes que conseguisse dizer algo, a irmã já havia desaparecido pela porta.

*****

A mãe deu de ombros. 
Ela foi embora de casa porque quis.
Maurício entrou no quarto de Ângela. O mais triste quarto do mundo, composto apenas por uma cama, uma penteadeira e um guarda-roupa antigos, de madeira escura. Parecia o cômodo de uma velha moribunda ou de um monge franciscano. Jamais o quarto de uma garota de 24 anos. Não havia nada a decorá-lo. As paredes eram brancas e vazias. A janela, sem cortinas, onde a irmã passava horas debruçada, muda e distante, vendo a vida deslizar lá fora, estava escancarada. Maurício olhou pela janela, ao longe, tentando adivinhar onde Ângela podia estar.
Era para fugir que ela me pediu dinheiro – concluiu.
Ângela levara todas as roupas e objetos pessoais. Deixara o quarto impecavelmente limpo, sem vestígio algum de sua passagem por ali. 
A louca envenenou o cachorro e queimou todas aquelas revistas de celebridades que colecionava – contou a mãe.
Maurício pensou em acionar a polícia. Temia pela segurança de Ângela, sozinha, largada por aí. Depois, reconsiderou sua decisão. A irmã, enfim, libertava-se da tirania da mãe e de uma existência em ponto morto para se jogar inteira na vida. Maurício, com um sorriso de satisfação e sarcasmo apontado para a mãe, compreendeu que não tinha o direito de impedi-la. Se Ângela escolhera ser livre para buscar o seu lugar no mundo, devia somente desejar boa sorte para a irmã.
E foi o que fez, olhando pela janela. 
Boa sorte, Ângela!

*da série histórias inspiradas em imagens.

Um comentário:

  1. Owwwwwwwwwwwwwwwww...
    Que bom que este texto vei aportar aqui no "O Idiota...", e eu cof cof...

    Eu não falei o que me disse o livro, enfim...
    Aqui não é lugar, mas como todo arranjo de palvras que você faz eu gostei muitíssimo.

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