segunda-feira, 7 de maio de 2012

Adivinha quem é?


Foto: Sarah Ann Loreth

Estava de pé, plantada há horas no mesmo lugar, as mãos dentro dos bolsos da jaqueta, observando a multidão que caminhava alegre e vagarosa pelas ruas interditadas. Eram tantas e tantas e tantas pessoas. Um aglomerado enorme de desconhecidos. Ao fundo, lá longe, ouvia-se a voz do cantor cantar uma canção qualquer.
Ela estava só. E a sua solidão gritava. Mas ninguém, absolutamente ninguém, era capaz de escutá-la em meio ao burburinho de vozes, gargalhadas e berros.
De repente, entre os estranhos, reconheceu o rosto de um homem que a conhecia. A respiração falhou, sentiu o coração acelerar, uma faísca de esperança se acendeu dentro dela. Enfim, não era uma completa desconhecida no meio da multidão.
Aguardou ansiosa. Quase pulou na frente dele para ser notada. O homem, porém, apenas olhou para ela à distância, sorriu, acenou com a cabeça e seguiu em frente.
Ela murchou. Teve vontade louca de correr atrás dele. Queria abraçá-lo. Queria ser abraçada pelo único homem que percebera a sua existência entre milhares de outras existências. Resignada, conteve-se. E continuou ali, de pé, plantada no mesmo lugar, observando a vida passar diante dos seus olhos caídos.
Acendeu um cigarro para não chorar.
Ela podia ser amiga de muitos. Podia estar cercada de atenção e carinhos. Não era má pessoa, não era chata e inconveniente. Era uma mulher comum. E só.
Após jogar a bituca do cigarro no chão e pisá-la com tristeza, foi surpreendida por mãos quentes e femininas que cobriram os seus olhos. De novo, sentiu o coração acelerar. Fora descoberta entre tantos.
Adivinha quem é?
Ela não reconheceu aquela voz suave e reconfortante. Não fazia ideia de quem podia ser. Arriscou o nome de uma velha conhecida.
Suzana?
Poxa, você não conhece mais a minha voz, é?! – advertiu a mulher, retirando as mãos que cobriam os olhos da outra.
Ela se virou. A mulher, um tanto constrangida, deu um passo para trás, surpresa.
Ai, desculpa. Eu pensei que fosse outra pessoa.
Ela sorriu sem graça. A outra, também sem graça, pediu mais desculpas e foi embora acompanhada por seu grupo de amigos.
Desolada, resolveu voltar para casa. No caminho, enquanto desviava e fugia do aglomerado de estranhos com passos apressados e cabisbaixa, lamentava com dor profunda não ser aquela “outra pessoa”.

*da série histórias inspiradas em imagens
    

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