segunda-feira, 21 de maio de 2012

Meninas bonitas não devem chupar sorvete em público

Arte: Evelyne Axell

A menina entrou no vagão do metrô distraída e alegre. Sentou-se em um banco quase de frente para o homem grisalho de terno e gravata. Ele, assim que a percebeu, deitou seus olhos vidrados e míopes sobre ela. A menina devia ter uns 18 anos. E usava um vestido de estampa florida.
Era tarde abafada de verão. Mas, indiferente ao calor pornográfico que perturbava os instintos e umedecia as peles, a menina deslizava suave a língua vermelha pela textura doce, macia e gelada do sorvete. Lambidinhas de prazer intenso que faziam o homem derreter sob o terno vagabundo.
O metrô escapou do subterrâneo e atingiu a superfície. A luz do sol invadiu o vagão, surgiu por detrás da menina, iluminando seus cabelos claros e cacheados. O homem estremeceu de paixão ao ser surpreendido por aquela imagem ao mesmo tempo angelical e tentadora. 

Meninas bonitas não devem chupar sorvete em públicopensou.

O homem tentava evitar o desejo. Mas o desejo, muitas vezes, é inevitável, indomável, aterrorizante. Emerge selvagem de algum canto escuro e desconhecido da alma. Ele cerrou os olhos por instantes a fim de acalmar o ânimo. Ao abri-los, a menina havia desaparecido em meio ao tumulto de barrigas, pernas e bundas que o impediam de vê-la do outro lado do vagão.
Uma aflição angustiante o inquietou. Ele moveu a cabeça para todos os lados em busca de uma fresta, de um vão por onde pudesse avistá-la novamente. Encontrou. Um minúsculo espaço vazio que emoldurava apenas o rosto da menina.
Atormentado pelo desejo, o homem a espiou chupar e chupar o sorvete até o sorvete desaparecer inteiro dentro dela. Deliciada, a menina lambeu os lábios de satisfação. Ele, com a respiração ofegante, fez o mesmo. Lambeu os lábios de vontade.

*da série histórias inspiradas em imagens  
           

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