quarta-feira, 2 de maio de 2012

o médico e o monstro


a BandNews noticiou um caso de injúria racial ocorrido em Brasília. Parece que um homem tentou furar a fila para comprar o ingresso do cinema e a moça da bilheteria o impediu. O homem, então, teria xingado a moça com ofensas racistas.

veja a reportagem aqui.

o caso, em si, é lamentável. Mas, lendo os comentários, o que mais deixou as pessoas indignadas é o fato de o homem ser médico psicanalista e professor universitário. Deveria, portanto, ter mais noção de cidadania por ser um sujeito instruído. Deveria...

certa vez, há muitos anos, me envolvi em um acidente de carro. Bati o meu na traseira do carro da mulher de um médico. Batida leve, sem feridos. Pela lei, eu estava errado. E reconheci o meu erro. Quando o médico chegou para “socorrer” a mulher, informei meu nome, meu endereço, o número do meu telefone e disse que entraria em contato na segunda-feira. O acidente aconteceu num sábado à noite.

tudo resolvido, certo? Errado.

no domingo de manhã, lá pelas 9h, o médico apareceu na minha casa. Eu ainda dormia. Minha mãe me chamou. Eu desci até a portaria. O médico estava acompanhado de dois policiais civis amigos dele. Disse que tinha ido à minha casa para verificar se eu havia informado o endereço certo.

mentira. Se fosse isso, bastava ter telefonado. O médico, na verdade, foi lá para me intimidar. Para isso, levou os dois “capangas” à tiracolo. Era uma espécie de ameaça para garantir que eu pagaria o conserto do carro da mulher dele.

sei que essa história nada tem a ver com a história de injúria racial ocorrida em Brasília. Mas, nos dois casos, há sujeitos instruídos, com ensino superior, demonstrando que podem ser tão filhos da puta como qualquer outro.

muitas vezes, quanto mais educação formal o cara tem, mais prepotente, mais arrogante, mais elitista ele é. Na época do acidente, eu era um garoto de 20 anos, pobre (continuo pobre!), morando em conjunto habitacional. É óbvio que o médico bem de vida e bem instruído desconfiaria da minha honestidade, indo na minha casa para me intimidar. Assim como esse outro médico aí achou que podia intimidar a moça da bilheteria.

assim é: muita gente que tem mais grana, poder, instrução não pede, exige; não negocia, intimida. Eu paguei o conserto do carro. Não por medo. Mas porque meu pai me ensinou a assumir as consequências dos meus erros. Aprendizado que nenhuma faculdade, por melhor que seja, é capaz de ensinar aos babacas.
    

Nenhum comentário:

Postar um comentário