terça-feira, 29 de maio de 2012

simplesmente humano


texto bem bacana do Marcelo Carneiro da Cunha sobre a união estável de casais homossexuais. "Casamento, caros leitores, não é hétero, nem gay. Ele é simplesmente humano."
 
Homofóbico não passa de um medroso
Por Marcelo Carneiro da Cunha – Terra Magazine

Estimados leitores, pois leio aqui, sentado no banquinho do treinador enquanto ele foi até a esquina achar uma alternativa pro 3-2-2-2-1, que a Comissão de Direitos Humanos do Senado acaba de aprovar a união estável para casais homossexuais.

Pra um zagueiro de ofício, essa discussão sobre quem pode casar é mais desprovida de sentido do que o debate interminável sobre quantos juízes é melhor ter em campo. Se queremos ter futebol, basta um. Se preferirmos uma assembléia sobre cada entrada duvidosa e bola que ultrapassa a linha do gol, então, vários. O que é que desejamos, afinal? Se queremos uma sociedade que funcione como um time afinado, e não como um Flamengo, precisamos admitir que existem coisas que valem pra todos, inclusive o R10. A lei por exemplo.

Se todo mundo é igual diante da lei, e a lei diz que as pessoas têm o direito de formar uma sociedade civil quando vivem juntas, compartilham dos mesmos recursos e estruturas, e têm, herdam, ou adotam filhos, essa lei, estimados leitores, vale para todos – gays, absolutamente inclusive. Porque as únicas pessoas que parecem dispostas e interessadas em formar casais são homens e mulheres heterossexuais, e homens e mulheres homossexuais. No entanto, alguns ficam insistindo que a lei só vale para os heterossexuais, porque sim. Porque Deus disse. Porque sempre foi. Porque se abrir pra todo mundo o direito de casar, o que será do mundo. Como se em um mundo cercado por asteróides louquinhos pra cair sobre ele, e tomado por motosserras, CO2, terremotos e Michel Teló, justamente o casamento possa ser a causa do fim do mundo. Risível, não é mesmo?

Noves fora os esquisitos casamentos poligâmicos, que nunca pegaram de verdade com exceção dos mórmons e algumas outras sociedades exóticas, parece que as pessoas formam casais. E isso não tem tanto assim a ver com sexo, mas sim com o que se entende por amor. E amor, caros leitores, não é hétero nem homossexual, e nem ao menos é sexual, mesmo que inclua o sexo entre os seus atrativos possíveis. Independente da lei, ou do local, ou da época, a forma mais presente de união humana é formada por duplas. Deve ter a ver com a nossa natureza e a nossa evolução. Mas essas duplas nunca foram exclusivamente heterossexuais, em sociedade alguma, em tempo algum, fora o Irã do Ahmadinejad. Alguma coisa acontece com os seres humanos que os torna atraídos pelos seres humanos do gênero oposto, ou pelo mesmo. Isso, caros leitores, acontece.

Aqui no vestiário se sabe muito bem que acontece. Existem os héteros, e existem os gays, e eles não se diferenciam de maneira alguma na hora em que entram em campo e partem pra cima da bola e do jogo. Você, caro leitor, não sabe quem do seu time é gay ou não, mas posso lhe assegurar que eles são muitos, e estão por aí, e sempre estiveram, e é natural que estejam. Não há qualquer diferença na hora da botinada, nem qualquer diferença em qualquer outra hora, embora possam existir algumas diferenças na hora da escolha da roupa preferida ou parceiro pra sair pra balada. Isso, caros leitores, é absolutamente do jogo.

Existem pessoas, héteros ou não, que preferem a vida solteira. Existem pessoas que preferem formar casais e investir em algo que tente durar, enquanto der, pra sempre, se der. Esse é um direito que elas têm. De estarem juntas em um quarto de hospital, de criar crianças como seus filhos, com todos os compromissos que isso envolve, de formar patrimônio que será herdado por alguém, ou dividido de maneira justa, nos casos em que essa sociedade, por um dos milhares de motivos possíveis, se dissolver.

Casamento, caros leitores, não é hétero, nem gay. Ele é simplesmente humano. Ele representa uma das formas preferidas pelos humanos para viver a vida. 

Agora, me expliquem, e por favor sejam mais claros do que o Abel Braga tentando explicar uma formação tática: por que ele deveria ser negado a uns humanos, e permitido a outros?

Os religiosos dizem que é a Bíblia, ou o Corão, que manda. Mas a República é laica, e o casamento é civil. Não temos nada, mas nada mesmo, que ver com o que os religiosos sintam a respeito, já que pensar não é o forte desse povo.

Notem que o termo homofobia não significa raiva ou ódio contra homossexuais. Significa medo deles. As religiões têm medo de tudo que é associado com o humano, tais como liberdade ou prazer. E se existe uma coisa no mundo que zagueiro não tolera, é medroso em campo.

Liberdade é o oposto de fé, e prazer é o oposto de paixão, porque paixão vem de passio, que quer dizer, sofrer. Tudo que uma boa religião adora é a total ausência de prazer, em um ambiente em que não existam escolhas.

Um zagueiro clássico sabe que a vida e o futebol só existem na presença de ambos, tanto liberdade quanto prazer. Sem isso, todo jogo vira algo tão excitante quanto um amistoso entre Suíça e Áustria, nos dez minutos iniciais. Seco, desanimado, triste, puro, e por isso mesmo, sem sentido.

Casamento é uma consequência do encontro de dois seres humanos que resolvem, por processos que só a eles pertencem, viverem juntos e construir sob um contrato de casamento. Ele é uma sociedade civil porque envolve direitos e deveres. Ele é regulado por lei, e ela é para todos os casais que quiserem casar. Os demais, que não quiserem, não casam. 

Quem não entende algo assim tão simples, por favor, saia da frente. Vocês estão tapando a vista e a luz. E o tempo de vocês, como o do 4-2-4, passou.

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