quinta-feira, 7 de junho de 2012

A mosca espiã

Foto: Yoko Ono
Acordou mosca. E voou à procura dele. Queria ser mosca para vigiá-lo de perto, sem ser notada e seu desejo fora atendido por algum gênio da lâmpada.
Voou quilômetros, ziguezagueando de um lado para o outro, até encontrá-lo em um bar, bebendo cerveja, sozinho. Pousou sobre a ponta do nariz do marido só para incomodá-lo. Quase foi estapeada. Desviou a tempo e resolveu encontrar um lugar seguro para não ser esmagada. Grudou-se à parede. E, de lá, viu quando a mulher bonita chegou sorridente e oferecida. Ele a recebeu com um beijo. A mosca, puta da vida, voou na direção da mulher e passou a zumbir próximo da orelha dela. Queria atazaná-la. Queria arrancar os cabelos da mulher. Mas era apenas mosca.
Ele pagou a conta. Os dois se levantaram e seguiram para o estacionamento. A mosca voou atrás deles e conseguiu entrar no carro. Continuou zumbindo na orelha da mulher até o carro entrar em um motel. A mosca arregalou os olhos de horror.
 – Que filhos da puta!
No quarto, enquanto seu marido e a mulher trocavam beijos e carícias, a mosca, pousada sobre o abajur, tentava voltar ao normal. Suplicava com desespero para voltar a ser o que era antes e poder interromper a traição do marido.
Mas, desta vez, o seu desejo não foi atendido. E a mosca, por ser apenas mosca, teve que assistir a tudo sem nada poder fazer.

*da série histórias inspiradas em imagens.
    

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