segunda-feira, 4 de junho de 2012

O coitado

Foto: Josephine Dvorken

Desde a noite em que a senhora do 310 o abraçara com compaixão sincera, resolveu não mais lutar para escapar da miséria que o abatia. Passou a se sentir confortável sendo um coitado. E percebeu que quanto mais coitado aparentava ser, mais atenção e carinho recebia das pessoas.
Logo, deixou a barba crescer. Depois, começou a se vestir só com roupas escuras e puídas. Caminhava sempre cabisbaixo e levemente encurvado, como quem carrega o peso do mundo nas costas. Ao avistá-lo, os vizinhos cochichavam.
– Está sempre triste, coitado.        
– É verdade. Deve ter sofrido muito na vida.
Todos no prédio sabiam que ele era um coitado. Ninguém, no entanto, sabia o motivo da sua desgraça, o que tinha acontecido de tão grave e irremediável para deixá-lo naquele estado lamentável.
– Será que foi morte de parente?
– Pode ser desilusão amorosa. O amor, às vezes, desgraça a pessoa.   
Ele morava sozinho em um apartamento de poucos móveis e sem nada a bordar seus ambientes. Vivia com o mínimo. E o restante recebia dos vizinhos, que o cobriam de agrados. A senhora do 310 era a mais atenciosa. Levava para ele pedaços de bolo, pratos de sopa e bombons quase todas as noites.
Assim, o coitado continuou coitado por longo tempo.

*****

Meses depois, ao entrar no prédio, a mulher do 117, a única que não ia com a cara do coitado e mantinha distância segura dele, reparou que, nas últimas semanas, pouco encontrava os vizinhos nas áreas comuns do condomínio. Cismada, decidiu ir ao apartamento da senhora do 310. Tocou a campainha e aguardou. 
Quando a senhora do 310 abriu a porta, a mulher do 117 levou um susto.
– A senhora está bem?!
A outra apenas levantou os ombros como quem diz: “tanto faz”.
Alegre, faladeira e sempre bem disposta, a senhora do 310, com aparência maltrapilha e desanimada, parecia uma morta-viva.
– O que aconteceu com a senhora? – insistiu a mulher do 117.   
– Nada. Só estou triste. E sem vontade de sair de casa.
Ao ir ao apartamento de outros moradores, a mulher do 117 descobriu que todos estavam acometidos do mesmo desânimo da senhora do 310. O coitado, como ela temia, espalhara a sua desgraça pelo condomínio.
Revoltada, a mulher do 117 estava disposta a encontrar um jeito de expulsar o coitado do prédio. Resolveu ir falar com o síndico. Chamou o elevador. Mas, quando a porta do elevador se abriu, o coitado estava lá dentro – como sempre, cabisbaixo. 
Ao vê-lo, desamparado e encolhido no canto do elevador, a mulher do 117 sentiu uma estranha e inesperada vontade de abraçá-lo. Tentou resistir. Tentou ignorá-lo. Mas bastou o coitado erguer a cabeça e encará-la com tristeza avassaladora para a mulher também se entregar à desgraça que havia contagiado a todos.  

*da série histórias inspiradas em imagens.

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