terça-feira, 21 de agosto de 2012

A cerimônia de casamento



 É a mais bela cerimônia de casamento que aqueles duzentos convidados elegantemente trajados presenciam.
Linda em seu vestido branco, visivelmente emocionada, com o coração batendo ligeiro e desvairado, Marcela, ao som de um quarteto de violinos que interpretam a marcha nupcial, entra na imponente igreja decorada com delicadas flores do campo.
Marcela sonhara com esse momento desde menina, quando passava as tardes brincando de inventar mirabolantes histórias de amor para suas bonecas. Maravilhada, enfim realizava o seu mais precioso sonho. O sonho romântico de viver para sempre ao lado do mais encantador príncipe que encontrara em suas andanças pelo mundo. Marcela está apaixonada, perdidamente apaixonada. Sente-se feliz, estupidamente feliz. E, movida pela paixão que tritura tudo, idealiza em Fred o homem perfeito, o homem com quem está resolvida a compartilhar alegrias e tristezas até que a morte os separe.
Durante os longos seis meses que antecederam o casamento, Marcela cuidou de cada detalhe da cerimônia com dedicação militar, e proibiu Fred de vê-la vestida de noiva antes da hora. Não queria que nada – nem mesmo as superstições atrapalhasse o início da sua nova vida ao lado do homem que tanto ama.
Ao avistar Fred no altar, garboso e bem alinhado dentro do seu terno cinza, Marcela sente vontade louca de apressar os passos. Anseia pelo instante de responder à clássica pergunta:
– Marcela, você aceita Fred como seu legítimo esposo?
Sim, ela o aceita. Na verdade, havia decidido aceitá-lo como marido há dois anos e sete meses. Desde o dia em que o conhecera em um carnaval em Salvador. 
         Antes, porém, a noiva precisa esperar o padre – com aquele sotaque idiota dos padres discorrer sobre o amor, o respeito, a fidelidade entre os casais e, por fim, abençoar o matrimônio.
Marcela só não contava com aquele calor fora de época. Calor de deserto que beira o insuportável e exaspera as finas senhoras gordas, já desesperadas com o suor que escorre por entre as suas nádegas de hipopótamo.
Enquanto o velho sacerdote papagueia sem parar, alheio à inquietação crescente dos convidados, a igreja, aos poucos, é tomada por um mormaço quente e pegajoso. Até as flores do campo começam a murchar, sufocadas pelo terrível abafadiço.
No altar, Marcela, Fred, os pais dos noivos, padrinhos e madrinhas tentam permanecer concentrados na cerimônia. Mas o suor brota incontrolável pelos poros, inundando as dobras do corpo e expelindo um leve mau-cheiro que logo atrai as moscas. Milhares de moscas que zumbem frenéticas pela igreja, pousando atrevidas sobre as peles úmidas e melecadas.
Angustiado com o calor, com o ataque das moscas, um casal abandona a igreja. Em seguida, outros fazem o mesmo. Ao pressentir o desastre, Marcela, discretamente, pede para o padre encerrar a cerimônia com urgência. Tarde demais.
A senhora gorda, sentada no banco da terceira fileira, sucumbe ao bafo quente, desmaia e provoca grande alvoroço entre os convidados. O padre é obrigado a interromper a cerimônia para que a mulher seja socorrida, e mais pessoas aproveitam o providencial incidente para escapar daquele inferno.  
De pé, plantada no altar, vendo a igreja esvaziar, Marcela, com os olhos borrados de tristeza, espia Fred. O noivo – gosmento do alto da cabeça à sola dos pés – definha, derrete em silêncio sob o terno cinza, e exala um odor azedo e inédito que revira o estômago – e as expectativasde Marcela.
            Ao notar a expressão desolada da noiva, uma das madrinhas, a mais invejosa, cochicha no ouvido do marido:
            É, meu querido, não há romance que resista ao suor.

           *da série histórias inspiradas em imagens.
 

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