terça-feira, 7 de agosto de 2012

O homem fiel

Pintura Danny Keith

Ele queria. Por raiva, por vingança, por amor próprio. Saiu de casa decidido a trepar com o primeiro que encontrasse na rua. Encontrou vários: de todos os tipos e tamanhos. Ignorou aqueles que não o seduziam, tentou com outros. O desejo, porém, não apareceu – mesmo após beber e ficar meio embriagado. Horas depois, exausto e contrariado, voltou para casa sem gozar. No apartamento, Antonio, o seu namorado, dormia. Ao vê-lo encolhido na cama, com feição angelical, balbuciou um xingamento:
– Desgraçado...
             Seguido de um lamento:
             – ... por que você faz isso comigo?
Ele sabia da infidelidade de Antonio. Sabia que o namorado aprontava toda vez que sumia e, com cara-de-pau espetacular, retornava de suas escapulidas como se nada tivesse acontecido. Farto de ser traído desse jeito, resolvera devolver o chifre. Acreditava que, sendo infiel também, deixaria de sentir-se humilhado, de ser a vítima da relação. O problema – se é que isso seja um problema – é que ele não conseguia desejar nenhum outro homem. Nenhum, por mais interessante e bonito que fosse. Para ele, o namorado bastava. Mas para Antonio...
– Eu não basto – refletiu.
Acendeu o cigarro e, como costumava fazer quando precisava repensar a vida, foi para a janela. Se não era capaz de trair, existiam apenas duas alternativas: aceitar passivamente a infidelidade do namorado ou terminar a relação. Avaliou ambas, enquanto observava os poucos carros que ainda cruzavam a avenida àquela hora da madrugada.
Era feliz com Antonio. Sexualmente, completavam-se. O tesão um pelo outro, após anos juntos, permanecia à flor da pele. Bastava um olhar, um toque, uma insinuação, e os dois enrijeciam de desejo. Fora da cama, também davam-se bem, conversavam sobre tudo, dividiam suas dúvidas, apreciavam os mesmos filmes e as mesmas músicas. Não havia motivos para a separação. Ou havia?
Sim, havia as traições de Antonio.
Entre um trago e outro no cigarro, ele tentava desvendar porque o namorado necessitava transar com outros homens. Se a vida conjugal dos dois estivesse assexuada, em ponto morto, até entenderia tal atitude. É mesmo irresistível sair à procura de novas sensações e experiências quando o tédio despenca sobre o casal. Trair, em casos assim, até torna-se parte da relação.
– Mas ele me ama, sei que me ama... E nunca demonstrou tédio nesse tempo todo em que estamos casados – resmungava baixinho para si mesmo quando é surpreendido pelo abraço do namorado.
– Está sem sono?
Ao ouvir a voz afetuosa de Antonio e sentir o corpo dele encostar no seu, ele estremece e, no mesmo instante, decide que não quer perdê-lo – não agora.
– Vem pra cama comigo.
– Antes, preciso te dizer que eu sei, Antonio.
– Sabe o quê?
– Eu apenas sei. Mas não importa.
Sem entender nada, o namorado pega na mão dele e o leva para a cama.  
          
            *da série histórias inspiradas em imagens.

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