domingo, 23 de setembro de 2012

Roberto


O carro pifou de repente. Pifou bem no meio do congestionamento. Ainda tentei reanimá-lo. Girei a chave quatro, cinco vezes. Nada aconteceu. O carro não deu sinal de que voltaria a funcionar. Era um carro novinho em folha, cinza-metálico, com direção hidráulica, vidros elétricos, DVD – e adquirido em 64 suaves prestações. Não queria comprá-lo, não sentia necessidade nenhuma de ter um carro, mas Maria Eduarda insistiu tanto! Disse que seríamos mais felizes tendo um carro na garagem; disse que todos os vizinhos estavam comprando; disse que a vida se tornaria um pouco mais suportável se tivéssemos um carro para nos locomover. Acabei concordando e, duas semanas após comprar a geringonça, estava ali, enguiçado no meio daquela avenida abarrotada de milhares de outros carros novinhos em folha, sendo atacado por buzinas impacientes e enfurecidas. Naquele momento, observando a lentidão apressada do mundo lá fora, percebi, sem espanto, que o maldito carro não faria eu me sentir mais feliz nem tornaria minha vida mais suportável. Ri de mim mesmo, ri da minha ingenuidade em acreditar em Maria Eduarda, e resolvi abandonar o carro.
– Foda-se!
Segui a pé, em meio à balburdia ensurdecedora do cair da noite, quando a cidade pulsa desvairada, quando almas vazias e desesperadas se atropelam pelas calçadas, nos pontos de ônibus, nas estações de metrô. Segui a pé por horas, por quilômetros, virando à direita, à esquerda, indo em frente, procurando o trajeto mais longo e demorado possível para chegar em casa. O telefone celular tocou. Olhei no visor. Era Maria Eduarda. Devia estar angustiada com o meu atraso. Não atendi. O telefone tocou de novo e de novo e de novo... Ignorei. Também nunca desejei ter telefone celular, mas Maria Eduarda disse que era fundamental eu ter um, caso ela precisasse falar comigo com urgência. Acabei comprando o modelo mais caro para agradar à vaidade da minha mulher. Mas, desde o dia em que adquiri o aparelho, nunca houve qualquer emergência. Só conversas à toa, blá-blá-blá, perseguição. Maria Eduarda, na verdade, queria que eu tivesse um telefone celular para poder me monitorar à distância. Ligava várias vezes ao dia, inventando desculpas esfarrapadas, apenas para saber onde eu estava, com quem eu estava, o que eu estava fazendo. Naquela noite, na 47a vez que o telefone tocou, resolvi me desfazer dele, e o joguei na primeira lixeira que encontrei pelo caminho.
– Foda-se!
Exausto, com as pernas doloridas de tanto caminhar, entrei em um boteco para descansar e refrescar a garganta. Pedi uma garrafa de água mineral. O sujeito gordo e suado que me atendeu me encarou com expressão mau humorada. Olhei em volta. Estranhei o lugar. Era um boteco de pinguços solitários. Havia uns sete homens no boteco, bebendo suas cervejas. Todos calados, introspectivos, alheios à presença um do outro e encobertos por uma luz suja, amarelada, asfixiante. Ao fundo, tocava um bolero que combinava perfeitamente com aquele ambiente de solidão e miséria. Sedento, sentado de frente para o balcão, esvaziei a garrafa de água em três longos goles e, revigorado, perguntei ao sujeito mau humorado quanto era.
– R$ 2,50 – ele respondeu.
Retirei a carteira do bolso. Lembrei que carregava apenas uma nota de R$ 50 na carteira.
– Não tenho troco! – avisou o sujeito mau humorado. 
– Infelizmente, eu só tenho essa nota de 50 – expliquei.          
O sujeito bufou de impaciência e, trombudo, levantando o tom de voz, me desafiou:
– E como você vai resolver isso?!
Encarei o sujeito mau humorado com preguiça avassaladora e notei que os pinguços solitários, subitamente despertos e atentos, olhavam para mim com curiosidade para saber qual seria a minha reação.
– Tudo bem. Pode ficar com o troco.
Deixei a nota de R$ 50 sobre o balcão e saí do boteco sem pressa, sem revolta, sem raiva, sem dinheiro nenhum na carteira.
– Foda-se!
Continuei andando pelas ruas e avenidas cada vez mais desertas e silenciosas. Atravessei vários e vários quarteirões e, parado numa esquina qualquer, vasculhando a paisagem ao redor, percebi que, quanto mais eu caminhava, mais eu me afastava de casa. Distraído, com os pensamentos perdidos, havia seguido para o lado oposto, por direções que me levaram para longe, bem longe de Maria Eduarda. Minha mulher devia estar aflita com o meu desaparecimento e, à essa altura, já devia ter contatado amigos e familiares em busca de notícias minhas. Conseguia até vê-la – inquieta pelo apartamento, com as mãos trêmulas – discando repetidas vezes o número do celular que eu jogara fora. Conheço Maria Eduarda, sei como ela fica quando escapo do seu controle, e sentia certo alívio perverso por ela não saber onde eu estava; por ela não poder se comunicar comigo; por deixá-la atônita e descabelada com o meu sumiço.
– Foda-se!
Dois rapazes me interpelaram em algum lugar escuro da cidade. Pediram cigarro. Eram meninos ainda, talvez menores de idade. Um branco; o outro, negro. Ambos vestiam bermuda e blusa de moletom com capuzes cobrindo suas cabeças. Quando fui pegar o maço de cigarros no bolso da calça, um deles retirou uma arma da cintura e a apontou para mim.
– Perdeu, tio! Passa a carteira, vai!
Por um instante, congelei. Os rapazes estavam apreensivos, talvez drogados, pareciam assustados e nervosos.
– Vai logo, porra! Quer levar um tiro?!  
Com calma, sem demonstrar medo, peguei a carteira e a entreguei para o rapaz negro. Ele, de forma brusca, arrancou a carteira da minha mão e, junto com o outro, fugiu ligeiro, desaparecendo na madrugada. Levou com ele a minha identidade e os meus cartões de banco. Permaneci estático por dois segundos e, sei lá por qual razão, fui acometido por um riso frouxo e incontrolável – aquele tipo de riso libertador que arranca lágrimas dos olhos e faz doer o estômago. Ri até não poder mais. Ri até desabar no chão molhado de mijo.  
– Foda-se!
Estava sentado no meio-fio daquela rua desconhecida quando o homem apareceu não sei de qual lugar da escuridão e se sentou ao meu lado. Cheirava a suor vencido e cachaça. Vestia um paletó sujo e rasgado. Tinha os cabelos desgrenhados, a pele encardida, a feição alegre e tranquila.
– Bebe aí, amigo. Acho que você tá precisando.  
Peguei a garrafa que ele me oferecia e bebi. A pinga desceu queimando a minha garganta, amortecendo os meus sentidos. Senti uma paz incrível. Alienante. Ficamos sentados naquele meio-fio por longo tempo, bebendo e conversando. O homem me contou que era engenheiro, pai de dois filhos e, até um ano e meio atrás, morava confortavelmente em um amplo apartamento. Numa noite qualquer, depois de mais uma briga interminável com a mulher, saiu de casa para espairecer e, cansado do mundo, resolveu nunca mais voltar.
– Foda-se! – ele resmungou.

Acordei na tarde seguinte sem saber onde estava. Olhei para os lados e vi dezenas de pessoas adoentadas largadas em camas imundas. O cheiro nauseante de hospital logo invadiu minhas narinas. Não lembrava de como havia chegado ali. A enfermeira se aproximou. Perguntei o que tinha acontecido.
– Você teve um coma alcoólico.
– E como eu vim parar aqui?
A enfermeira retirou um bilhete do bolso.
– Pediram pra te entregar.
Sem demora, li.

Amigo, ontem você apagou. Tive que chamar uma ambulância pra te socorrer. Espero que esteja bem. Se realmente estiver disposto a abandonar tudo, me procura na Rua Tal, na altura do número 400. Estou quase sempre por lá.
Roberto.

*Da série histórias inspiradas em imagens.
 

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