sábado, 22 de setembro de 2012

Vida bandida


 Foto: João Wainer

Geovani da Silva Melo, 28, nasceu em Pernambuco. Aos três anos, mudou-se para São Paulo com a família. Ele tem seis irmãos. O pai é operador de máquinas. A mãe, costureira. Ao chegar na capital paulista, a família foi morar no Jardim Ângela. Por ter amigos no Parque Santo Antônio, ali próximo, Geovani cresceu entre esses dois bairros da zona sul da cidade.

INFÂNCIA
“Minha infância foi boa. Não posso reclamar. A gente passava por dificuldades que quase toda família passa. Mas sempre fui bem cuidado pela minha mãe e pelo meu pai. Meu pai nunca bebeu, nunca fumou. Na família, eu sou o único que fuma. Parei durante três anos e voltei. Mas vou parar de novo.”

(Na sessão de fotos para esta reportagem, ele pediu para não ser clicado com o cigarro na mão)

Geovani estudou até a 8a série: “Parei por causa da minha condição. Eu já era pai. Tive que largar os estudos para trabalhar.” Casado com Jaqueline, ele tem três filhos: Beatriz, de 9 anos, Rafael, 6, e Kevin Geovani, 2. Para sustentar mulher e filhos, trabalhou em um restaurante libanês, em Moema, e, depois, como mecânico de automóveis.
Mas, aí, a situação complicou e Geovani não resistiu ao chamado da tal “vida bandida”.

OPORTUNIDADE
“Quando entrei para o tráfico, foi uma opção de vida mesmo. Eu não tinha como sustentar minha mulher, meus filhos, pagar aluguel. Estava difícil arrumar trampo. Foi uma oportunidade. Os caras te convidam. ‘Olha, tem uma lojinha, você quer tocar ela pra mim?’. Mas eu tinha em mente que, se fosse pra entrar pro tráfico, eu seria o dono, não trabalharia pra ninguém. Foi aí que veio a ideia de abrir uma lojinha no Parque Santo Antonio.”

(Lojinha, no vocabulário dos traficantes, significa boca de venda de drogas)

Decidido a ter o seu próprio “negócio”, Geovani saiu em busca de parceiros: “Tive uns acompanhamentos por fora, pra trocar umas ideias comigo. Não é assim que funciona: vou chegar e abrir uma boca. Precisa ter uns conhecimentos aqui e ali.”
No período em que dominou o tráfico no Parque Santo Antônio, Geovani comandava oito “funcionários”. Vendia cocaína, maconha e lança perfume. “Só não vendia pedra. Nunca fui a favor de crack.” Por semana, ele revela que faturava de R$ 6 mil a R$ 7 mil. “Quanto mais droga eu pegava pra vender, maior era o lucro.” Geovani pagava R$ 500 para cada funcionário – “todos maiores de idade” – e, dependendo do movimento da boca, embolsava de R$ 3 mil e R$ 4 mil.
E de onde vem a droga, Geovani? – “Ah, a droga vem de vários lugares, de vários pontos.”

VULGO: CABELO
“Eu tinha uns 13 anos e fiz uma mecha no cabelo, fiquei com um topete amarelo. Chegou um cara novo lá no Jardim Ângela e ficou falando do meu cabelo. O apelido acabou pegando.”

(Geovani, hoje, prefere não ser chamado mais por esse apelido: “Foi, passou o tempo do Cabelo. Não uso mais esse vulgo e ninguém mais me chama assim. Agora é Geovani.”)

Para abrir o seu ponto de tráfico, ele teve que acabar com outro que já funcionava ali perto. No início, para se proteger “de qualquer eventualidade que viesse a acontecer”, Geovani e seus parceiros de crime andavam armados. “Você arruma treta com meio mundo, tem cara querendo te pegar e você não querer ficar pra trás. Ou é meu ou não é de ninguém. No começo foi complicado. Mas, depois de uns dias, perceberam que o ponto era meu e não tinha jeito.”

POLÍCIA
“Nunca tive problema com a polícia. Os caras sabiam do Cabelo, mas não sabiam quem era o Cabelo. Procuravam, mas não achavam. Eu comandava, mas não ficava aqui.”

(Geovani tem apenas um único antecedente criminal: por porte ilegal de arma)

MAIS TEMIDO OU MAIS ADMIRADO?
“Eu era mais admirado. Temido nem tanto, porque não precisava ficar batendo em ninguém, ficar puxando revólver pra ninguém. O nome Cabelo cresceu e acabou botando pânico nos outros. Querendo ou não, o pessoal fica meio assustado, com medo. Mas quem me conhece sabe que não sou esse terror. Sou um cara tranquilo. É que o pessoal passa uma impressão de que você é um cara mau. Aí, fica essa imagem ruim.”

Geovani explica que ter essa “imagem ruim não é bom negócio”, porque o traficante acaba sendo denunciado pela população. “Você tem que ter uma imagem boa, de um cara que ajuda as pessoas. Desse jeito, você trás a população pro seu lado. Se tiver alguém querendo te matar, o morador te conta. Agora, se você é um cara ruim, ninguém vai te avisar.”
E alguém já tentou te matar, Geovani? – “Nunca tive confusão com ninguém. Nunca recebi ameaça, ninguém deu tiro em mim. Ando por aqui a qualquer hora do dia ou da noite.”
Geovani não enfrentou nenhuma reação dos moradores do Parque Santo Antônio quando montou a sua “lojinha” ali. Ao contrário. Ele conta que “o lugar era bagunçado”, tinha muitos usuários de droga e roubos. Ao se instalar no local, a sua primeira providência foi afastar “os nóias e os ladrões”, além de oferecer proteção e ajuda para os moradores. “Se o cara precisava comprar leite para os filhos e estava sem dinheiro, eu mandava comprar logo duas caixas.”
Assim, conquistou o respeito da população.
Hoje, Geovani e sua família moram em uma casa de frente para o Campo do Astro, um campo de futebol de terra batida cercado por um córrego coberto de esgoto e lixo. E foi ali que o designer Marcelo Rosenbaum e o projeto A Gente Transforma desembarcaram para mudar a vida de Geovani.

O PRIMEIRO ENCONTRO COM ROSENBAUM
“Os caras começaram a vir. Não mexiam comigo, eu não mexia com os caras. Aí, falaram pra mim que iam fazer um projeto aqui. Legal, bom pra nós. Falei para os meus meninos que o que os caras precisassem, podia liberar. Meu primeiro encontro com o Rosenbaum aconteceu numa reunião na Casa do Zezinho. Ele me perguntou se podia fazer o projeto. Eu respondi que sim.”

(Nessa época, nada era feito no Parque Santo Antônio sem a permissão de Geovani)

No dia 25 de maio de 2010, data em que o projeto A Gente Transforma foi inaugurado, Geovani chamou Rosenbaum para uma conversa. E foi a partir dessa conversa que a sua vida começou a se modificar. “Eu falei pra ele que não aguentava mais o tráfico, que queria ser alguém na vida. O cara ficou emocionado pra caramba e eu também.”
Resolvido a deixar o crime, Geovani se reuniu com seus comparsas e comunicou a sua decisão (dois deles preferiram continuar no tráfico e estão presos). Depois, deu alguns telefonemas para avisar que ninguém mais vendia drogas no Campo do Astro. “Muita gente ficou admirada, tanto do lado da civilização quanto do lado do crime. Alguns me perguntavam: ‘Cara, você parou a boca, vai trabalhar?’ Eu respondia: ‘Cansei dessa vida. Quero ter uma vida digna agora.’”
Não foi de uma hora para outra que Geovani decidiu mudar. “Eu já tinha esse pensamento, mas não tinha surgido a oportunidade. Por isso, eu falo que o A Gente Transforma foi a chave de tudo, uma porta que se abriu pra mim. O tráfico, chega uma hora, te sufoca. Você não pode sair, não pode curtir. E eu já me sentia sufocado.”
Assim que fechou a boca, Geovani foi trabalhar na Casa do Zezinho, no setor de manutenção. Recebia R$ 800 por mês. “No começo, sair de um lucro de R$ 4 mil por semana para R$ 800 por mês é complicado. Só que aí você pensa, analisa a situação. Eu tenho três filhos. No tráfico, eu podia morrer ou ir preso. E se isso acontecesse, quem iria cuidar dos meus filhos?”

A PAZ QUE EU VIVO AGORA
“Me sinto aliviado. Ando por aí, saio, coisa que eu não fazia antes. Eu vivia trancado. Ia dormir lá pelas seis da manhã. Ficava acordado, pensando: ‘os caras vão invadir a minha casa, a polícia vai aparecer’. Hoje, não devo nada pra ninguém. No tráfico, você tem dinheiro toda hora, mas não tem paz. E a paz que eu vivo agora vale por tudo.”

Parque Santo Antônio, Campo Limpo e Capão Redondo formam uma região que já foi chamada de “triângulo da morte”, devido aos altos índices de assassinatos que ocorriam no lugar. Embora a situação ainda seja alarmante, tanto na questão da segurança quanto no vergonhoso descaso do poder público com as populações que vivem nas periferias da cidade, Geovani acredita que a realidade melhorou. “Antigamente, ninguém entrava aqui. Era morte direto. Hoje, está na paz, você não vê tanta confusão.”
De comandante do tráfico, Geovani passou a combatente do tráfico. “No meu pedaço, onde eu moro, ninguém mais põe droga. Os caras me respeitam.”
Geovani saiu da Casa do Zezinho para trabalhar com Marcelo Rosenbaum. Tem viajado por alguns lugares do Brasil proferindo palestras, como a que apresentou na última edição da São Paulo Fashion Week. Sobre o futuro, ele deseja apenas que seus filhos estudem. “Meus filhos agora podem se espelhar em mim”, diz, sem esconder o orgulho. Ele também está escrevendo um livro em parceira com Natércia Pontes, do projeto A Gente Transforma, em que vai contar a sua história de transformação.
Ao fim da entrevista, Geovani fez a gentileza de levar este repórter até o ponto de táxi mais próximo a bordo do seu fusca branco – comprado, segundo ele, depois que mudou de vida, depois que se reinventou como cidadão.
“Tráfico, nunca mais!”, avisa.

Entrevista publicada originalmente na revista ffwMAG!

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