sexta-feira, 19 de outubro de 2012

A doida e seu balé desajeitado

Estava no carro, preso em mais um congestionamento. No rádio, Caleb Followill, com sua voz de arame farpado, cantava Sex on Fire: “... If it’s not forever/ If it’s just tonight/ Oh, it still the greatest...”.

Acendi um cigarro. Sempre acendo um cigarro quando o trânsito me impede de seguir em frente.

Ao olhar para o lado, vi a doida na calçada dançando alegremente na calçada. Ela parecia gritar uma canção que eu não podia ouvir, balançava o corpo gordo de modo desengonçado, divertido.

Notei que, ao passar pela doida, algumas pessoas riam dela, outras a encaravam com desdém e todas mantinham distância segura para evitar qualquer risco de “contaminação”. Fazer discursos bonitos e elaborados sobre os párias do mundo todos fazem, mas abraçá-los poucos ousam.

A doida nem aí para os olhares de escárnio ou reprovação continuou seu balé desajeitado. E eu, ao vê-la curtindo aquela liberdade que só os loucos varridos conhecem, senti uma inveja tremenda dela. Afinal, quem era mais feliz naquele momento: eu, preso dentro do carro, ou a doida, dançando livre naquela calçada?

A lucidez é um porre. A lucidez nos mantêm ocupados, penosamente ocupados. É a lucidez que faz a gente pentear os cabelos antes de sair de casa, como se pentear os cabelos fosse algo fundamental. Não, não é. É apenas mais uma das mil e uma desculpas que inventamos para validar a nossa existência de merda.

Segui com o carro. A doida ficou lá, dançando. Ao contrário dela, completamente alheia às chateações da vida, eu ainda sei muito bem quem eu sou e estava indo para mais uma aborrecida reunião de trabalho.

Fosse doido, podia estar dançando pelado no meio da rua. 

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