sábado, 3 de novembro de 2012

A menina da Mostra de Cinema

Ela apareceu toda cheirosinha, magrinha, intelectualzinha. Usa óculos de aro preto, o que lhe dá certo ar inteligente e sexy. Chegou comentando sobre os vários filmes que viu durante a 36a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Uns filmes de que nunca ouvi falar, de diretores que falam essas línguas estrangeiras com consoantes demais. Disse que gostou muito dos filmes. Disse que Hollywood é uma merda. Disse entusiasmada (quase soltando um “u-hu!” descontrolado) que não via a hora de assistir à Nosferatu no Auditório Ibirapuera. “Com acompanhamento de orquestra ao vivo!”, fez questão de frisar.

Depois de apresentar seus atributos cinematográficos, ela me perguntou quais filmes eu tinha visto na Mostra. Respondi nenhum. E acrescentei: “Nunca vi filme nenhum em nenhuma das edições da Mostra”. Ela subiu as sobrancelhas, olhou para mim como se eu fosse um ET e, a partir daí, não prestou mais atenção em nada que eu falava.

Se você não sabe, aprenda. São Paulo é dividida entre aqueles que assistem a filmes da Mostra e aqueles que não. E aqueles que assistem a filmes da Mostra necessitam espalhar por aí que assistiram a filmes da Mostra. É espécie de ISO 9001, como dizer que curte Criolo e leu Ulysses do James Joyce; que frequenta exposições de arte e passeatas em nome da liberdade de expressão.

É sério. A menina passou a me ignorar depois que assumi que faço parte da turma de burros desinformados que não assiste a filmes da Mostra. Para provocá-la, comentei que durmo durante a sessão se o filme não conter sangue e porrada. A menina me olhava com um misto de desdém, pena e irritação

Criolo está certo: não existe amor em SP. Só pose.
 

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