sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Blackout

... e, assim, de um segundo para o outro, tudo se apagou: as luzes, a TV, os relógios, o computador, a vida. Uma escuridão profunda e aterradora despencou sobre mim. Praguejei um puta que o pariu! antes de levar as mãos à cabeça. Permaneci sentado, em silêncio. Acendi o cigarro. Ouvia o barulho da chuva lá fora, enquanto aguardava o retorno da eletricidade que me religaria ao mundo. Navegava pela internet, espiava páginas de pornografia, excitava os sentidos, quando a energia pifou, deixando-me só. Não era a primeira vez que isso acontecia.  

Logo a luz volta, logo a luz volta, logo a luz volta – balbuciava para mim mesmo, feito oração. Mas os minutos avançaram, e nada. Apenas cegueira. 

A impaciência me inquietou, fez eu andar zonzo pelo apartamento. Tateava o escuro para evitar caneladas e esbarrões. Sentia o coração apertado, na iminência de implodir. Não conseguia mais ficar parado. Ia até a janela. Voltava. Percorria os cômodos do apartamento sem saber onde estacionar a minha agitação. 

De pé, no meio da sala, amaldiçoei o breu que havia engolido móveis, paredes, sensações, tudo. Faltava-me ar. E espaço. Debatia-me para escapar da escuridão que me asfixiava. Era um enterrado vivo.

As janelas dos outros prédios também estavam apagadas. O bairro inteiro parecia morto. E poucos carros atravessavam a avenida, iluminando o nada. Cogitei dormir. Sou extremamente feliz quando adormeço no meio de um filme ruim. E preguiçoso ao acordar. Preguiça de acordar e perceber que tudo está onde devia estar.

Acendi outro cigarro e fui para a janela. A chuva cessara. Percorri a avenida com os olhos. Negror. Ao longe, avistei a imagem fantasmagórica de um casal caminhando às pressas pela calçada. O casal devia aproveitar a interrupção da chuva para voltar para casa. E eu, em casa, sem eletricidade e sem nada para fazer.

Eu aprecio não fazer nada. Mas odeio ser obrigado a não fazer nada. Quero ter o direito de escolher hora e local para minha vadiagem.

A impaciência cresceu. Virou irritação. Ainda apavorado com o apagão repentino e interminável, percebi o óbvio: sem energia, quase não respiro.

Em um átimo de segundo, as saídas de emergência que costumo utilizar para fugir do isolamento e me conectar com o mundo estavam fechadas, bloqueadas, intransitáveis. Sem luz, não havia leitura; sem TV, não havia entorpecimento dos sentidos; sem computador, não havia salas de bate-papo, música, redes sociais, amigos, sexo. 

E sem sono, permaneci acordado até a luz voltar, meia hora depois.
  

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