quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

O meu lugar no mundo


Minha mãe encontrou algumas antigas fitas de videocassete esquecidas no fundo de uma gaveta e pediu para eu verificar se “ainda prestam”, se ainda é possível ver algo nelas. Para quem nasceu depois dos 1980, explico: fitas de videocassete serviam para gravar as nossas vivências, como hoje fazemos com a câmera de vídeo do celular. O problema é que, com o passar do tempo, essas fitas emboloram, desgastam, mofam. Por isso, estou digitalizando-as para não perdê-las.

São vídeos de festas de família, de passeios em família. Vídeos onde revejo pessoas queridas que já morreram (são várias), amigos com quem nunca mais tive contato, momentos que haviam se apagado da minha memória há muito tempo. Ver essas imagens é como se redescobrir. Veja só: eu já pulei Carnaval fantasiado de pirata; já usei cabelos compridos; já morei por cinco anos no Japão; já participei do Banho da Dorotéia vestido de mulher bagaceira; já toquei violão; já fui jovem e bobo e irresponsável.

Confesso que sinto certa vergonha ao assistir a algumas imagens onde apareço, e não consigo evitar o espanto: “Nossa, como eu tinha coragem de me vestir assim?!”; ou: “Puta que o pariu, que cabelo ridículo!”; ou: “Quem é esse imbecil? Sou eu?! Não acredito!”. Às vezes, nem me reconheço nesse “eu” embolorado.

Essa viagem ao passado é, ao mesmo tempo, divertida e amarga. Se, por um lado, rio de mim mesmo, dos meus vexames; por outro, sinto uma saudade doída de mim mesmo, das pessoas que não estão mais comigo, de uma época em que ainda acreditava nessa tal felicidade.

Não sou do tipo que fica lamentando o que passou. Afinal, de que adianta lamentar o que sabemos que não vai voltar? Vida que segue. Mas rememorar o passado me ajuda a entender o sujeito que me tornei. Não creio em destino, nesse papo de que tudo já está determinado. Creio que somos nós quem definimos o nosso futuro a partir das escolhas que fazemos no presente. Simples assim. Só os bundões culpam deus, o diabo ou quem quer que seja por seus fracassos.  

Assistindo aos vídeos e relembrando os períodos em que os vídeos foram gravados percebo que segui por direções jamais imaginadas e me tornei alguém que jamais planejei ser. Tinha sonhos, quereres, vontades, mas nunca tive um "projeto de vida", uma meta a ser alcançada. Fui me construindo de acordo com as oportunidades que surgiam, com as pessoas que cruzavam o meu caminho. Fiz escolhas erradas? Muitas. Mas sei que acertei em outras tantas.

Ziguezagueando pela vida, ciscando aqui e ali, fui me transformando no que sou hoje, cheguei ao lugar onde estou hoje. Não é o melhor lugar do mundo, mas é o meu lugar no mundo. E está bom assim.
 

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