sábado, 2 de fevereiro de 2013

A capacidade de ser feliz


Leia com atenção:

Há pessoas que parecem viver em harmonia. A maior parte do tempo elas têm o sentimento de que a vida é generosa. São capazes de apreciar aqueles à sua volta e os pequenos prazeres do dia a dia: refeições, sono, projetos, relacionamentos. Elas não pertencem a nenhum culto ou religião. Não vivem em um país específico. Algumas são ricas, outras não. Algumas são casadas, outras vivem sozinhas. Algumas têm um talento especial, outras são comuns. Todas já passaram por fracassos, decepções, momentos tenebrosos. Ninguém está livre de dificuldades, mas, em geral, essas pessoas parecem mais bem equipadas para superar obstáculos. Elas parecem ter uma certa habilidade em se livrar de problemas, de dar significado a suas vidas, como se tivessem uma relação mais íntima consigo mesmas, com os outros e com o que elas escolheram fazer com suas vidas. Como é que alguém é capaz de se recuperar tão rapidamente? Como cultivar essa capacidade de ser feliz?

Trecho do livro Curar, de David Servan-Schreiber (Sá Editora).

Assim como há pessoas que vêm ao mundo com a alma frágil e, na primeira ou segunda rasteira que levam da vida, quebram-se inteiras, acho que existem pessoas (essas que o Servan-Schreiber descreve em seu livro) que já nascem com essa capacidade incrível de ser feliz – ou, ao menos, de encarar a vida com mais leveza, sem deixar-se abater facilmente a cada tombo.    

Minha diarista é assim. Foi largada pelo marido safado, tem três filhos para criar (o pai paga uma merreca de pensão) e nunca a vi triste, nunca a vi reclamar de sua existência árdua. Segue firme, forte e sorridente, curtindo o bom da vida e aceitando o ruim como parte da “aventura”. Detalhe: ela não é religiosa, não necessita de deus nenhum para "iluminar" o seu caminho.

Alguns podem repetir aquela velha anedota: “Para curar qualquer depressão basta um tanque cheio de roupa suja para lavar.” Olha, se isso fosse verdade, eu seria a pessoa mais feliz do mundo. Sou uma “doméstica” arretada.

Esses artifícios – jogar-se no trabalho, realizar algo físico etc. – nada são além disso mesmo: artifícios. Um jeitinho que encontramos de ocupar a cabeça, o corpo e o tempo com "desatenções" para amortecer momentaneamente a nossa dor. Eu, por exemplo, lavo o banheiro com o som do rádio no volume máximo para distrair o "cachorro louco" que vive dentro de mim. Funciona por algumas horas, mas quem sofre sabe: de madrugada o "cachorro louco" volta a morder. Banheiros limpos não preenchem vazios existenciais.

Hoje tenho consciência de que não sou como as pessoas citadas por Servan-Schreiber. Não sei ser feliz, assim como não sei fazer crochê. Podia aprender, mas cadê vontade?
 

8 comentários:

  1. Bom isso, realmente, pouca gente se dá conta que a perda mis significativa na vida é a vontade, porque com ela vai todo o resto. È terrivel voce saber que precisa e que pode fazer alguma coisa mas não tem coragem e nem vontade!

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  2. leveza. sempre digo "saúde e leveza" em brindes, parabéns, nascimentos, etc, porque acredito que seja a base pra se viver melhor. mas a gente sabe que não é fácil atingir esse grau de seiláoque e lidar com os baques com resignação e tranquilidade, como faz sua diarista. é um exercício diário, né marcos? diário e muito difícil...

    tentemos pois. =)

    beijo procê!

    iza

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  3. Encontrei em suas palavras a melhor forma de me expressar. Definitivamente passo pelas mesmas coisas. Essa necessidade em dar sentido a vida me mata.

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    1. Sim, Julio, sou desses que sofrem de falta de sentido. abs.

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  4. Marcos,
    parabéns pelos textos. Gostaria de ter esta sua habilidade para expor as ideias.
    Quanto ao texto acima, realmente parece existir esta divisão entre pessoas que enfrentam as adversidades e aquelas que se escondem embaixo da cama. Acredito que seja genético.
    A "velha anedota de lavar roupa no tanque" como diz você realmente não é a cura dos problemas. Mas acho que passa por ai.
    Sofro de ataques de ansiedade e vivo pensando no futuro.
    Ja percebi que melhoro quando "esqueço" das minhas preocupações imerso em atividades. Um paliativo? pode ser...
    Acredito também que meter a cara no trabalho é importante para nos tirar daqueles momentos em que estamos fragilizados e com muita pena de nós mesmos. Meio que atolados na lama.
    A atividade nos tira deste atolamento.
    O sentido da vida? talvez seja procurar sentido para a vida.. ja leu O Guia do Mochileiro das Galaxias?
    A ignorância é uma benção e talvez o nosso problema seja pensar de mais. São os "porquês" e "e se"'s que nos trazem tanta dor de cabeça.

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    1. AristótelesB, também melhoro quando "esqueço"; o problema eh conseguir esquecer. abs.

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  5. Vc acabou de me descrever, é assim que me sinto.

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  6. Muito bom seu blog - que, sim, achei pesquisando sobre o Êxodus...rs
    Sobre esse texto, concordo que o trabalho - estar produzindo/criando/desenvolvendo/aprendendo - é artifício, mero paliativo. E acrescento: com prazo de validade, perdendo a eficácia paulatinamente, até que chega a hora em que as crises - momentos de fundo do poço - invertem os papéis e, então, são elas que prejudicam nossa produção, ao invés de nossa produção aliviar as crises. Mas essa é só a minha infeliz experiência com essa "questão " ;-)
    Meus parabéns! Sua escrita é muito boa e a ideia de compartilhar suas experiências e impressões dessa...doença (?) certamente auxilia muita gente. Espero que esteja melhor.

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