quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Um dia de merda


Modelos de uma marca chamada Ashish desfilaram na Semana de Moda de Londres (Inverno/2013) vestindo peças com mensagens irônicas, tipo:

“The end is near” (O fim está próximo)
“I’m having a shit day, thanks” (Estou tendo um dia de merda, obrigado)
“Très fatigué” (Muito cansado)

Parece que a auto-depreciação chegou pra valer ao mundinho encantado da moda. Virou moda debochar de si mesmo? Agora é moda ser irônico com a própria desgraça? Sei lá, não circulo por esse zoológico habitado por lagerfelds e versaces.

De qualquer forma, ao ver essas mensagens estampadas numa passarela de moda, fiquei desconfiado. A gente sabe: estilistas costumam se apropriar das coisas e transformá-las em algo legal, de bom-gosto, desejável.

Mas é legal, de bom-gosto, desejável ter “um dia de merda”?

Sim, pode ser. Explico.

Existe uma certa poesia pop na melancolia, no pessimismo, na solidão, num dia de merda. Por esse motivo, posar de triste e insatisfeito seria como se opor à alegria “gangnam style” da gentalha “sem estilo” e “sem noção”. Em muitos casos, é só isso mesmo: pose. Gente bem nutrida à beira de uma piscina queixando-se como um Thom York em "Creep":

“Que diabos estou fazendo aqui?/ Eu não pertenço a este lugar”.

A gente tem mesmo essa mania infantil de romantizar tudo, de transformar tudo num videoclipe de cores esmaecidas, num poema do Bukowski. Achamos “très chic” estar descabelado, descompensado, desordenado, perambulando à toa pelo lado sombrio e selvagem da nossa existência. Ser "loser", para muitos, é ser fashion. 

O problema é que dores verdadeiras não cabem numa mensagem irônica estampada numa camiseta bacaninha, e quem já visitou o inferno sabe bem disso.

Nenhum comentário:

Postar um comentário