terça-feira, 26 de março de 2013

Cuidado, o inimigo pode morar ao seu lado


Moro em um prédio onde sei que moram algumas putas, algumas bichas, alguns maconheiros e umas senhoras que passam o dia a vigiar a vida alheia. Tem evangélico também. Tem ateu. Tem gente gorda, gente magra; gente feia e bonita. Tem gato. Tem cachorro. Tem um senhorzinho de uns 80 anos que sempre lava a sola dos sapatos na água do meio fio antes de entrar no prédio.

Anão não tem. Pelo menos nunca vi. Mas poderia ter.

Moro aqui há 12 anos e nunca tive nenhum problema grave com a vizinhança. Respeito a todos, desde que todos me respeitem.

Claro que as senhoras que passam o dia a vigiar a vida alheia devem fuxicar sobre mim e JK. No dia em que o nosso colchão novo chegou, encontrei uma dessas senhoras na portaria do prédio. Com expressão maliciosa, ela comentou: “Hum, colchão novo, é?”

Para senhoras desocupadas, qualquer acontecimento, até a entrega de um simples colchão, gera assunto para a hora do chá com biscoito. Acho que, naquela ocasião, o prédio inteiro deve ter sido informado que eu e JK tínhamos comprado um colchão novo.

Conviver é isso. Respirar fundo, contar até dez e lidar com fofocas, perfumes enjoativos no elevador, gente que fala aos berros, vizinhos que escutam música ruim no volume máximo e ainda cantam junto.

Conviver é exercício de tolerância e, bem ou mal, vamos levando, vamos mantendo um mínimo de bons modos. E sorte nossa que seja desse jeito. Sorte nossa que evoluímos a tal ponto. Se o mundo real fosse igual ao mundo virtual, acho que a humanidade estaria com os dias contados. 

Veja só. É na internet que as pessoas estão mostrando quem de fato são. É na internet que as pessoas estão assumindo seus preconceitos e pregando ódio a quem é diferente delas. Protegidas pelo anonimato e pela distância, falam o que realmente pensam, falam barbaridades que jamais teriam coragem de falar na cara do outro.

Por mais contraditório que pareça, o avanço tecnológico permitiu a criação de um “lugar primitivo” (a internet), onde o homem pode voltar aos seus primórdios pré-civilização, onde não há “jogo de cena”, onde todos liberam os seus instintos mais selvagens. Na internet, retrocedemos ao nosso passado animalesco.

Lá fora, somos um tantinho mais civilizados e procuramos obedecer às regras de convivência social. Na internet, somos bestiais. E do jeito que as coisas estão, não me surpreenderia se descobrisse que o meu vizinho gente boa é o canalha que ataca homossexuais na surdina da web. 

Cuidado, o inimigo pode morar ao seu lado.

2 comentários:

  1. Oi, Marcos,
    Perfeita essa abordagem que você fez a respeito da dualidade moderno/primitivo em relação à internet. É tão evidente e não nos damos conta. Penso que é por isso que às vezes sinto uma angústia tremenda quando penso nas ilimitadas possibilidades que a internet proporciona às pessoas que não têm escrúpulos em fazer o mal ao outro.

    .......
    Gosto muito dos seus textos.

    Abraços
    Denise Santos

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. obrigado por acessar o blog, Denise. Eu tb sinto essa mesma angústia. abs.

      Excluir