sábado, 13 de abril de 2013

A mulher descalça


 

Desequilibrou-se assim que abandonou o táxi para seguir o resto do trajeto a pé. Desequilibrou-se e torceu o tornozelo.
Aflita, com pressa, Isadora deixou para sentir dor depois, embora a dor a perseguisse no seu andar rápido e manco: um passo sobre o salto; o outro passo sem o salto.
O salto do sapato direito quebrara-se em seu desequilíbrio, machucando o seu tornozelo direito. Ela largou o salto lá atrás, pelo caminho. Precisava chegar a tempo.
Após andar coxa por uns duzentos metros, resolveu retirar os sapatos – o inteiro e o quebrado – para ir mais ligeira. Jogou-os longe, com raiva. Vestida elegantemente em seu tailleur preto de executiva bem sucedida – e descalça – seguiu veloz pela calçada, desviando das pessoas sem rosto que a olhavam com curiosidade.
Quanto mais se aproximava do local onde necessitava chegar, mais apressava os passos. Suava um suor frio. Seu coração batia acelerado. Engolia o ar com avidez para não perder o fôlego.
Ao avistar, enfim, a porta do local onde necessitava estar, passou a correr, e quase foi atropelada por uma motocicleta ao atravessar a rua entre os carros. O motociclista a xingou: “Vagabunda!”. Ela nem ouviu. Entrou porta adentro, esbaforida. Mas não havia mais ninguém no local onde necessitava estar há 2 horas, não agora. Levou as mãos bem cuidadas, com unhas limpas e bem cortadas, ao rosto. Logo, lágrimas transbordaram dos seus olhos, misturando-se ao suor que brotava da sua pele branca e macia. Outra vez, não chegara a tempo.
O velho faxineiro veio até ela com a vassoura na mão.
– A senhora está bem?, perguntou.
– Eu tentei, eu juro que tentei, ela resmungou baixinho.
– Então, continua tentando. Na próxima vez a senhora consegue, procurou confortá-la o velho faxineiro.
Ela riu, nervosa.
– Não, não haverá próxima vez!
Esgotada, despediu-se do velho faxineiro com um breve sorriso borrado de vermelho e saiu do local onde não mais necessitava estar. Lá fora, escurecia. E o trânsito continuava congestionado, com carros e mais carros e mais carros encurralados um atrás do outro. O seu tornozelo direito – e roxo – começava a doer uma dor lancinante, que quase a impedia de caminhar.
Agora ela não necessitava estar mais em local nenhum. Podia ficar ali à toa, descalça e sem pressa. Sentiu algum alívio ao pensar nisso. Mas era consumida pela culpa de não ter conseguido chegar a tempo. Foi o trânsito, foi esse maldito trânsito!, lamentou. Não, foi negligência minha. Eu devia ter saído antes, retrucou a si mesma.
As pessoas sem rosto desviavam dela, parada no meio da calçada, desnorteada, sem saber para onde ir. Só faltava chover. E choveu. Ela não correu para escapar da chuva. Nem conseguiria. O tornozelo doía quando ela pisava o chão com o pé direito. Sentou-se no meio-fio e se deixou ensopar pela tempestade.
Lá pelas tantas, o marido e a filha vieram lhe buscar. Envergonhada, ela não era capaz de olhar os dois nos olhos.
– Mãe, tá tudo bem, disse a filha, papai gravou a minha apresentação. Amanhã você assiste.            
Após ouvir a filha, Isadora ouviu o barulho assustador de algo se quebrando dentro dela. Algo que – ao contrário do salto quebrado que largara pelo caminho – teria que carregar para sempre com ela.

*da série histórias inspiradas em imagens.

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