segunda-feira, 8 de abril de 2013

Lei natural



Toda madrugada, quando os barulhos silenciam e as multidões apressadas desaparecem das ruas, fecho-me no meu apartamento à meia-luz e o vejo apodrecendo sob a terra negra e úmida. Ele: decompondo-se devagarzinho, sendo devorado por vermes famintos, fedendo à insuportável carniça.
Que imagem terrível, meu Deus!
Seus olhos azuis vívidos, sua pele firme, sua boca cheia de palavras arrogantes, seu corpo moço desintegrando-se todo até virar um conjunto de ossos sem identidade, sem músculos rijos, sem sangue correndo pelas veias, sem o sorriso de dentes brancos que tantas noites roubaram o meu sono. Será que os seus cabelos claros ondulados ainda crescem no breu abafado do caixão? E as unhas sempre limpas e bem cortadas? Continuam crescendo junto com a grama verde e macia que cobre o seu túmulo?
Gosto... ah como eu gosto de vê-lo putrefato.
No velório, amaldiçoei sua palidez serena de defunto. Até defunto, ele estava bonito. Até defunto, ele parecia debochar de mim, da minha medonha velhice. Agora não mais. Agora ele nada mais é que despojo podre, resto de carne morta sepultada eternamente numa cova escura.
Aqui em cima, onde o sol continua a nascer a cada manhã, a vida pulsa como antes. O sol não esparge menos luz com a ausência dele. Os ônibus não mudaram de itinerário, as crianças não pararam de brincar no playground, os aniversários não foram cancelados. Tudo segue sem ele, indiferente à ausência dele, na mesma e monótona cadência de quando ele ainda estava ao meu lado, gabando-se da sua essencialidade, ofendendo minhas rugas com o vigor da sua juventude.
Eu sei, ele sabia. A lei natural da vida é o velho mofar e definhar e morrer antes; o velho desaparecer para o novo surgir. Mas nem todo velho suporta ser menosprezado pelo novo. Eu não suportei. E basta um pouquinho de veneno, um pouquinho a cada dia, em cada refeição, para essa lei natural perder completamente a sua validade.

*Da série histórias inspiradas em imagens.
 

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