segunda-feira, 8 de julho de 2013

A vítima obrigatória


Porque Nelson Rodrigues é genial.

A vítima obrigatória
Do livro O Óbvio Ululante
 
O ser humano é o único que se falsifica. Um tigre há de ser tigre eternamente. Um leão há de preservar, até morrer, o seu nobilíssimo rugido. E assim o sapo nasce sapo e como tal envelhece e fenece. Nunca vi um marreco que virasse outra coisa. Mas o ser humano pode, sim, desumanizar-se. Ele se falsifica e, ao mesmo tempo, falsifica o mundo. 

Não sei se me faço entender. Mas vamos lá. Por exemplo: Capri. Para nós, Capri não é uma paisagem, mas uma atitude. Ninguém vai a Capri ver a sua possível beleza. O que importa é a nossa postura diante da ilha. Chegamos lá e armamos o quadro plástico de nosso gesto e de nossa ênfase (e, realmente, esquecemos de sentir a volúpia paisagística).

E nem precisamos mudar de continente. Aqui mesmo, fazemos as nossas falsificações. Temos o Antonio’s, um restaurante que não é restaurante, mas uma simples atitude. Sua bebida não nos atrai, nem a sua comida. Vai-se lá por motivos ideológicos, literários, e não alcoólicos, vejam bem, não alcoólicos. No Antonio’s come-se com desprazer e bebe-se com tédio. Mas fazemos a nossa pose, e basta.

Freqüentar certos lugares é uma maneira de ser intelectual ou socialista sem redigir uma frase e sem arriscar uma opinião. Do mesmo modo, o freguês do Paissandu (e pelo simples fato de ir ao Paissandu) toma uns ares de inteligência e de vanguarda. Mais adiante escreverei sobre a geração do Paissandu. E, assim, falsários da vida, dos valores da vida, vamos fazendo as nossas poses políticas, ideológicas, literárias, religiosas etc. etc.

(Outro dia vou ao Antonio’s e vejo lá um rapaz, meu conhecido. Ele atropelava senhoras e mesas. De vez em quando varria o restaurante com uma saraivada de palavrões. Notei que as senhoras presentes não estavam assustadas com a pornografia ululante. E, de repente, o pau-d’água me viu e sentou-se a meu lado. Fala comigo e eu percebo tudo. Estava maravilhosamente sóbrio e repito: — não bebera nem água da bica. Simulava o pileque e fingia até a baba que pendia, elástica, do lábio caído.)  

Fiz a meditação acima, mas preciso ressalvar: — não estou dizendo, em absoluto, que o nosso tempo inventou os falsários de ambos os sexos. Cada época tem os seus, e repito: — cada época apresenta suas formas de falsificação. Por exemplo: — o ano de 1919. Era ainda o Rio do fraque e do espartilho (um e outro induziam ao sublime. Até o “bom-dia” era de uma ênfase insuportável).

No Rio de 1919 ainda se respeitava a mulher grávida. Em qualquer lugar, nos bondes, nas esquinas, nas salas, a mulher grávida era uma figura sagrada. Quando subia num bonde apinhado, todos se arremessavam. Ah, não, não acontecia como agora. Outro dia vou eu num ônibus superlotado. Pára o ônibus e entra uma gravidez de oito ou, até, de nove meses. Vejam bem: — latagões imensos continuaram solidamente sentados. Ninguém lhe ofereceu um mísero cantinho. E pior: — ainda a enxotaram, aos berros, para frente (sua fecundidade obstruía a passagem). Assim a mater espremida foi até o fim. Eu já imaginava que o garoto ia nascer ao primeiro solavanco. Tal descaro seria inviável em 1919. Naquele tempo, tirava-se o chapéu à mulher grávida como a uma igreja. (Hoje, não usamos nem o chapéu, nem o respeito.)

Volto à minha infância. Em 1919, morava perto de minha casa o “casal feliz”. Aos oito anos de idade, eu não conhecia a dúvida. Não questionava nada e acreditava em tudo. Só tinha certezas. E, se diziam que era o “casal feliz”, tinha de ser felicíssimo.

Na pior das hipóteses, seria “casal feliz” por comparação. Na rua Alegre e, por toda a Aldeia Campista, eram incontáveis os desastres matrimoniais. Eu próprio vi, certa vez, uma mulher bater no marido com o salto do sapato. O marido limitava-se a uma reivindicação:

— “Bate, mas não grita!”. Lembro-me de uma outra batalha conjugal. O marido berrava:

— “Te bebo o sangue!”.

O curioso é que os casais brigavam muito e ninguém se separava. Sei, hoje, que há, em qualquer casamento, uma vítima obrigatória. E a continuidade matrimonial exige que a vítima aceite seu destino e sua função. Pois bem: — no “casal feliz” não havia tal vítima. Casados há 25 anos, e já às portas das bodas de prata, marido e mulher eram de uma felicidade recíproca e total. Ao cair da tarde, lá vinham os dois. Passeavam de uma esquina a outra esquina, e de mãos dadas, como namorados.

Lembro-me de uma vizinha, gorda e patusca como uma viúva machadiana, que costumava dizer: — “Filho atrapalha”. Pois bem: — até nisso os dois tiveram sorte. Não que evitassem. Ou o marido ou a mulher recebera da natureza o privilégio da esterilidade. Aquele amor perfeito, irretocável, não merecia um choro de criança. De fora, só a criada. Mas esta era (mais uma graça) muda. E o fato é que o “casal feliz” tinha uma intimidade absoluta, inviolável. Minto. Fora a muda, apanhada num asilo, alguém mais violava tamanha solidão: — eu.

E de fato o “casal feliz” abria as portas para mim e só para mim. Foi ela quem me chamou. Eu ia passando e ouvi a voz: — “Menino, vem cá, menino”. Perguntou meu nome e disse: — “Você tem a cabeça grande. Deve ser inteligente”. E me chamou para dentro; e apanhou na fruteira, para mim, uma tangerina. No dia seguinte conheci o marido. Ele perguntou risonhamente: — “Esse é que é o Nelson?”. Desta vez a mulher ofereceu-me goiabada.

Todos os dias eu ia para lá. E, realmente, era um amor inédito na rua e no bairro. Só uma vez os dois estiveram a um milímetro da primeira e última briga. Foi na terça-feira gorda de 1919. Ele fora trabalhar na sua oficina de ourives (era ourives), mas ficou de levá-la para ver os préstitos (ambos torciam pelos Tenentes do Diabo). E, quando o marido chegou, já não dava mais tempo. Por um momento, ela quis ficar triste, chorar talvez o fracasso da terça-feira gorda. Mas reagiu e disse, já sorrindo: — “Fica para o ano que vem. No ano que vem nós vamos”. No dia seguinte, o ourives foi dizer para toda a rua que a mulher era uma santa.

E, de repente, ela cai doente. Na primeira fase não teve dor, apenas fraqueza. O próprio hálito a cansava. Passava os dias na cama. Gemia sem desespero: — “Estou tão cansada”. E, depois, passou a falar o mínimo, porque a voz já não suportava o peso das palavras. Só um mês depois deu-se nome à doença: — “anemia perniciosa” (devia ser câncer). Eu ia muito lá, fascinado por esse martírio. Na véspera de morrer, estávamos nós três no quarto. Ela suspirou para o marido: — “Só tenho pena de deixar você. Fui tão feliz, tão feliz”. Houve um momento em que o marido se levantou para ver não sei o que lá dentro. Ela o acompanha com o olhar; e quando ele sumiu, diz, ofegante: — “Como é chato meu marido! Como é chato!”. Ou por outra: — não disse “chato”, que era, na época, palavrão. Disse “cacete”. E repetiu: — “Como é cacete! Não suporto mais meu marido!”. Passara 25 anos simulando felicidade, assim como o falso bêbado do Antonio’s finge até a baba do pileque.

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