segunda-feira, 1 de julho de 2013

O capitalismo é a neurose da humanidade



A liberdade é uma coisa boa, não é? Nem sempre, argumenta a filósofa eslovena Renata Salecl. A liberdade de escolher entre um número ilimitado de opções de carreira ou marcas de café acaba se tornando um fardo. Nossa sociedade capitalista moderna é governada por uma "tirania da escolha".

Leia a entrevista publicada no Spiegel Online:

Spiegel Online: Na rede de fast-food Subway temos que tomar meia dúzia de decisões para poder finalmente desfrutar de um sanduíche. É isso que você quer dizer quando fala em suas palestras sobre a "tirania da escolha?"

Salecl: Eu tento evitar lugares como o Subway, e se acaso eu acabe indo lá, sempre peço a mesma coisa. Quando falo sobre a "tirania da escolha", falo sobre uma ideologia que se originou na era do capitalismo pós-industrial. Ela começou com o sonho americano – a idéia do self-made man, que trabalha para subir a escada da pobreza à riqueza. Aos poucos, esse conceito de carreira se transformou numa filosofia de vida universal. Hoje acreditamos que devemos poder escolher tudo: a forma como vivemos, a nossa aparência, mesmo quando se trata do café que compramos, precisamos constantemente pesar nossas decisões. Isso é extremamente insalubre.

Spiegel Online: Por quê?
Salecl: Porque nós constantemente nos sentimos estressados, sobrecarregados e culpados. Porque, de acordo com esta ideologia, é nossa culpa se estamos infelizes. Isso significa que tomamos uma decisão ruim.

Spiegel Online: E se fizermos a escolha certa?
Salecl: Nesse caso, costumamos sentir que há algo ainda melhor escondido atrás da próxima esquina. Então, nós nunca estamos verdadeiramente contentes e relutamos em nos decidir por qualquer coisa.

Spiegel Online: "Não deixe que o homem comum decida. Ele não é inteligente o bastante." Esse argumento tem sido usado por autocratas durante séculos. Você quer dizer que eles estão certos?
Salecl: Não. Eu não critico a liberdade política ou eleitoral, mas a perversão do conceito pelo capitalismo: a ilusão de que eu tenho poder sobre a minha própria vida.

Spiegel Online: Mas eu tenho esse poder. Eu posso decidir por mim mesmo o que eu quero, mesmo que esse pensamento me estresse.
Salecl: Nem um pouco. Um amigo, que é psicólogo, contou-me sobre uma paciente uma vez: a mulher tinha boa escolaridade, um bom emprego, uma casa e um marido amoroso. "Fiz tudo certo na minha vida", disse ela. "Mas ainda não estou feliz." Ela nunca fez o que ela mesma queria, mas o que acreditava que a sociedade esperava dela.

Spiegel Online: Então precisamos melhorar em nossa busca pela felicidade pessoal?
Salecl: Até isso é uma ilusão. A felicidade se tornou um parâmetro segundo o qual nos medimos. O mundo está cheio de revistas femininas que se esforçam para nos dizer o que nos fará felizes. Está cheio de atualizações de status do Facebook dizendo-nos o quanto as outras pessoas estão fazendo de suas vidas. Há até índices que avaliam o quão felizes são certas nações. "Ser feliz" se tornou imperativo social. Se você não for, você fracassou.

Spiegel Online: Mas o lema também diz a todos que eles podem fazer suas próprias escolhas. Isso dá às pessoas um maior controle sobre suas vidas.
Salecl: Sim, mas isso é apenas parcialmente verdadeiro. Nós ainda não podemos controlar as consequências que nossas escolhas trarão. Esse é o próximo passo. Não só queremos liberdade de escolha, mas também queremos uma garantia de que o que escolhemos será exatamente como imaginamos.

Spiegel Online: Por que estamos com tanto medo de apenas seguir o fluxo?
Salecl: Porque cada vez que nos decidimos por alguma coisa, perdemos outra. Comprar um carro é um grande exemplo. Muitas pessoas não leem avaliações apenas antes de comprar o carro, mas continuam lendo depois para se certificar de que realmente fizeram a escolha certa.

Spiegel Online: Se eu não tenho escolha porque não tenho dinheiro para comprar nada, isso vai me fazer mais feliz?
Salecl: Paradoxalmente, não. Um dos maiores ganhos do capitalismo é que até o escravo proletário se sente um senhor. Ele acredita que tem poder de mudar sua vida. Somos impulsionados pela ideologia do self-made man: trabalhamos mais, consumimos mais e, no final, consumimos a nós mesmos. As consequências são o esgotamento nervoso, a bulimia e outras doenças que são fruto do estilo de vida.

Spiegel Online: Por que nos tratamos tão mal?
Salecl: Sigmund Freud já havia descoberto que o sofrimento nos dá prazer – de uma estranha forma masoquista. A tirania da escolha explora essa fraqueza. A cultura do consumo nos exaure. Nós sofremos. Nós destruímos a nós mesmos. E simplesmente não conseguimos parar.

Spiegel Online: Mas nós não somos realmente as vítimas. Afinal de contas, nós mesmos criamos este sistema e enquanto continuarmos consumindo, ele continuará existindo. Em última análise, o capitalismo apenas reflete a natureza humana.
Salecl: Isso é verdade. Freud também disse que nós escolhemos nossas próprias neuroses. O capitalismo é a neurose da humanidade.

Spiegel Online: Há outros caminhos. Há um restaurante em Londres que serve apenas um prato e as pessoas estão fazendo fila do lado de fora para experimentá-lo. E uma empresa em Berlim que vende camisetas sem mostrá-las aos clientes antes.
Salecl: Isso é uma estratégia de marketing inteligente. Com as crianças, você pode ver a mesma coisa. Se perguntar a elas no cinema ao que querem assistir, elas provavelmente ficarão confusas. Por outro lado, se você diz, pouco antes, "vamos assistir a James Bond", elas provavelmente vão dizer: "Não, mamãe, qualquer coisa, mas isso não". Se não existem limites, nós criamos os nossos.

Spiegel Online: Será que um dia seremos verdadeiramente livres?
Salecl: Não. Mas podemos viver uma vida mais relaxada. Nós podemos aceitar que nossas decisões não são racionais, que estamos sempre condicionados pela sociedade; que perdemos algo cada vez que escolhemos outra coisa, e que não podemos verdadeiramente controlar as consequências de nossas decisões.

Entrevista conduzida por Stefan Schultz e publicada no UOL Notícias, com tradução de Eloise De Vylder

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