sexta-feira, 30 de agosto de 2013

Somos Todos Waldick Soriano



O sentimentalismo exagerado que embala as canções bregas de amor

Em Osaka, a terceira cidade mais populosa do Japão, atrás de Tóquio e Yokohama, tem um arranha-céu, chamado Umeda Sky Building, com 173 metros de altura e desenho arquitetônico imponente. O prédio é aberto para visitação pública.

Ao chegar ao alto do edifício, após subir pela “maior escada rolante do mundo”, percebe-se que o lugar é espécie de “cantinho dos enamorados” nas alturas. Havia vários casais no local. Alguns sentados em bancos duplos, abraçados ou de mãos dadas, curtindo a paisagem negra de Osaka em clima “love in the air”.

Um andar acima, no topo do prédio, tem um espaço ao ar livre com um grande coração iluminado por luzes vermelhas, onde os casais se fotografam. Os mais românticos podem comprar um pequeno cadeado em formato de coração, com seus nomes grafados, e deixar a lembrança de sua passagem por Osaka pendurada ali “para sempre”.

Soube depois que esses cadeados são comuns na Europa, onde são colocados em pontes de cidades como Paris, Roma e Londres. As chaves dos cadeados são jogadas nos rios e muitos casais acreditam que, enquanto as chaves permanecerem lá, no fundo do rio, o amor deles será eterno.  

É isso: no amor, seja onde for, somos todos Waldick Soriano.

DA FOSSA PARA A BOSSA

Waldick é um clássico do sentimentalismo exagerado que embala as canções bregas de amor. Altemar Dutra, Lindomar Castilho, Odair José, Fernando Mendes, Nelson Ned, Amado Batista, Agnaldo Timóteo, José Augusto, Wando, Reginaldo Rossi são outros nomes que integram esse estilo musical que passou a ser xingado de “brega” ou “cafona” a partir do final da década de 1950, após o surgimento da bossa nova. Antes, as canções românticas – cantadas em ritmo de samba-canção, bolero ou seresta – dominavam o cenário musical no país, e ninguém as consideravam de mau gosto. Foi o “banquinho e violão” do João Gilberto, com seu jeito minimalista de cantar, harmonias rebuscadas e letras mais elaboradas, que dividiu o Brasil entre aqueles que ainda curtiam uma boa fossa:

“Tornei-me um ébrio e na bebida busco esquecer/ Aquela ingrata que eu amava e que me abandonou”

E aqueles que passaram a curtir outras bossas:

“Vai minha tristeza/ E diz a ela que sem ela não pode ser/ Diz-lhe numa prece/ Que ela regresse/ Porque eu não posso mais sofrer”

As duas canções falam sobre o mesmo amor que não deu certo, mas entre O Ébrio, na voz empostada de Vicente Celestino, e Chega de Saudade, no cantar baixinho de João Gilberto, havia um país em transformação. O Brasil se urbanizava e uma classe média universitária e progressista surgia com vontade de consumir estilos musicais mais de acordo com a modernidade daqueles novos tempos.

A partir daí, todo Wando passaria a ser rotulado de cafona.

“Artistas populares de grande importância para milhões de brasileiros, mas que as elites culturais não identificam com a tradição – ou seja, às influências da bossa nova ou do tropicalismo – são considerados bregas e cafonas. Vão para o ralo comum, porque não se enquadram em nenhuma das duas vertentes”, explicou certa vez Paulo Cesar de Araújo, autor do livro Eu Não Sou Cachorro Não (Record, 2002). Na mesma entrevista, perguntei ao historiador se ser brega não é algo que faz parte da alma do brasileiro. Araújo foi além: “Eu diria que faz parte da alma do latino. E isso está expresso no bolero, na guarânia, na rumba, na conga, enfim, nos mais populares gêneros e ritmos musicais da América Latina. Não por acaso, esses rirmos são considerados de mau gosto pelas elites culturais.”

Eu Não Sou Cachorro Não, o livro, discorre sobre a importância dos artistas “cafonas” da década de 1970, com destaque para o cantor e compositor Odair José, aquele que pede para a amada parar de tomar a pílula, “porque ela não deixa o nosso filho nascer”, e faz declarações de amor a uma prostituta em Vou Tirar Você Desse Lugar. Vale lembrar que, quando Odair cantou essas canções, o Brasil estava sob regime militar e a sociedade era majoritariamente católica e conservadora. Com suas músicas, Odair provocava, contestando os valores morais da época. 

Já a canção Eu Não Sou Cachorro Não é o maior sucesso de Waldick Soriano. Para Araújo, “Waldick definiu o estilo musical brega”. Para a atriz Patrícia Pillar, diretora do documentário Waldick, Sempre no Meu Coração (2009), a letra de Eu Não Sou Cachorro Não é bonita. “A gente tem vontade de assumir, mas tem vergonha.”

É isso: no amor, muitos têm vergonha de assumir o seu lado Galã de Rodoviária. Tentam segurar a onda, posando de “moderninhos”. Mas é só pose mesmo. Quando o amor inventa de aparecer, casais apaixonados logo perdem a compostura, aderem ao kit-fofura (jantar à luz de velas, dormir de conchinha, apelidos carinhosos) e prendem cadeados com seus nomes no topo de um prédio em Osaka ou em pontes de cidades da Europa.

Se isso não é puro Waldick, o que é?

AMOR I LOVE YOU

Em um programa de TV surge Reginaldo Rossi com seu cabelo caju. O cantor inicia sua apresentação com uma versão estapafúrdia de I Will Survive, “hino gay” da Gloria Gaynor. Depois, segue cantando trechos de canções em francês, inglês e italiano, mas é em bom português que Rossi costuma fazer seu divertido manifesto em favor da música brega: “Se Amor I Love You fosse lançada por Fernando Mendes era brega. Como foi lançada por Marisa Monte não é brega.”

Fernando Mendes, para quem não sabe, é o autor de Você Não Me Ensinou a Te Esquecer, regravada por Caetano Veloso para o filme Lisbela e O Prisioneiro (2003), de Guel Arraes.

Paulo Cesar de Araújo: “Caetano está identificado à modernidade, e tudo o que canta ganha status de moderno, soa novo.”

Maria Bethania regravou É o Amor, da dupla Zezé Di Camargo e Luciano. Nando Reis regravou Fogo e Paixão, do Wando. Odair José teve disco produzido por Zeca Baleiro, com participações de Arnaldo Antunes e Paulo Miklos. E o próprio Caetano reinventou outra canção considerada brega: Sonhos, do Peninha.  

Paulo Cesar de Araújo: “São vários os aspectos que determinam a valorização de um trabalho artístico, e estes aspectos muitas vezes são exteriores a obra em si.”

É isso: canções bregas, renegadas pela gente de “bom gosto”, após receberem o aval de artistas apreciados pela gente de “bom gosto”, de repente viram grandes canções.

De um modo geral, no entanto, a música brega continua a ser tratada em tom de pilhéria, de escracho, sendo usada, por exemplo, como tema de abertura de séries de humor, como Os Normais, que tinha Você é Doida Demais, de Lindomar Castilho, na abertura, e Entre Tapas e Beijos, com a Banda Calypso, da tecnobrega homofóbica Joelma, interpretando canção homônima da dupla sertaneja Leandro e Leonardo.

CORAÇÕES PARTIDOS

No início do documentário Vou Rifar Meu Coração (2011), ouvimos o vozeirão de Nelson Ned interpretando a canção Eu Também Sou Sentimental:

“Quando o amor da gente/ Vai embora de repente/ A gente fica mesmo assim, sentimental/ Quem me vê chorando/ Vai saber que estou amando/ Pois na verdade eu também sou/ Sentimental”

Em seguida aparece um homem, um frentista, relatando com sinceridade emocionante a sua história de amor: “Eu nunca deixei ela em casa. O final de semana era nosso, nós saía, namorava, nós passeava na areia. Minha esposa era minha companheira, minha amiga, minha namorada. Eu pensei que nunca ia acabar. Mas acabou. Foi num sábado. Quando eu cheguei, vi a casa escura. Aí o coração começou a acelerar. Quando abri a porta, minha roupa tava na sala e ela tinha ido embora com outro rapaz. Aquilo foi o maior desespero da minha vida. Até hoje pergunto a mim mesmo porque aconteceu isso. Muitas pessoas falou coisas, que ela me traiu, mas eu não acreditei, nem acredito. Eu não vi. Tem uma música de Amado Batista que mexe muito comigo.”

A música é Folha Seca: “Fazia um dia bonito/ Quando ela chegou/ Era uma tarde tão triste/ Quando ela partiu”.

É essa relação entre o artista, suas canções e histórias reais de pessoas comuns que viveram as experiências amorosas que o artista canta o foco do filme dirigido por Ana Rieper.Vou Rifar Meu Coração (mesmo título de uma canção do Lindomar Castilho) revela a importância da música brega para as classes mais populares. Como afirma uma personagem, “são músicas que falam sobre coisas que realmente acontecem nas nossas vidas.”

DOR DE COTOVELO

Com letras simples e diretas, as canções bregas de amor não buscam rimas sofisticadas nem arranjos musicais complexos. São canções fáceis, com forte conteúdo machista e a grande maioria tem como tema mais comum a dor de cotovelo. Amado Batista, em depoimento para o documentário de Ana Rieper, explica: “Quando você tá sofrendo de amor, você acaba fazendo músicas melhores, acaba colocando pra fora mais o que você sente e as músicas saem com mais verdade.”

“Eu não sou cachorro, não/ Pra viver tão humilhado/ Eu não sou cachorro, não/ Para ser tão desprezado [...] A pior coisa do mundo/ É amar sendo enganado/ Quem despreza um grande amor/ Não merece ser feliz/ nem tampouco ser amado”

Muitos podem achar essa canção ridícula, mas que faz todo sentido quando levamos um pé na bunda, ah faz.

Texto publicado originalmente na revista ffwMAG!
   

Um comentário:

  1. E SOMOS BREGAS MESMO E COM MUITO ORGULHO, POIS TEMOS RAZAO E VIVEMOS COM O CORACAO, SENTIMENTOS E NADA MAIS

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