sábado, 7 de setembro de 2013

Dedos


        Nem sei quem foi o primeiro a apontar o dedo para mim. Quando me dei conta do que acontecia, já havia vários dedos descontrolados apontados para mim. Dedos jovens, dedos velhos; dedos curtos, dedos longos; dedos brancos, dedos pretos; dedos de homem, dedos de mulher.
        Eram tantos, meu Deus! Tantos dedos apontados para mim que não fui capaz de me desvencilhar deles nem de enfrentá-los. Fui encolhendo de medo e, ao perceberem que eu encolhia de medo, os dedos ficaram ainda mais eretos e decididos e valentes.
        A fraqueza de um fortalece o outro. Se tivesse reagido à acusação em vez de me encolher, talvez afugentasse os perseguidores. Mas sucumbi ao cerco e acabei paralisado de medo.
        O ataque contra mim só se encerrou quando alguém avistou outro alvo e, imediatamente, todos os dedos foram apontados para a mulher gorda que devorava um enorme sanduíche na mesa ao lado.
        Mas a mulher, ao contrário de mim, não se encolheu. Encheu-se de bravura e encarou cada dedo apontado para ela com postura firme e segura. Logo, algumas pessoas que presenciavam o ataque, contagiadas pela atitude corajosa da mulher gorda, juntaram-se a ela, e os perseguidores, acovardados, aos poucos foram desarmando-se dos seus dedos em riste.
        Envergonhado, me levantei e, cabisbaixo, fui embora sem conseguir olhar nos olhos da mulher gorda.

*Da série histórias inspiradas em imagens.

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