quarta-feira, 23 de outubro de 2013

O Duelo



Pensei que fosse bocejar durante O Duelo. O espetáculo, afinal, tem mais de três horas de duração. Mas como havia me avisado Aury Porto, nem percebemos o tempo passar e, ao final, a montagem recebeu aplausos entusiasmados da plateia. A peça está em cartaz no Centro Cultural São Paulo. Vale a pena assistir.

Abaixo, texto sobre O Duelo que escrevi para a revista Brasileiros. 

SOB O CALOR DO SERTÃO

Com 1.340 sítios arqueológicos e paleontológicos, o Parque Nacional da Serra da Capivara, no Piauí, tem uma das maiores concentrações de pinturas e gravuras rupestres do mundo e, em 1991, foi declarado Patrimônio Cultural da Humanidade pela UNESCO. O parque está situado em uma das regiões mais quentes do semiárido – a temperatura lá chega a 45º C e a umidade relativa do ar, de 20%, é quase a de deserto. Como ainda não existe aeroporto próximo, para chegar ao local são necessárias horas de estrada. O parque está a 300 km de Petrolina, em Pernambuco, e a 540 km de Teresina, a capital do Estado. E foi nesse lugar remoto que a mundana companhia realizou algumas das primeiras apresentações do espetáculo O Duelo.

Aury Porto: “Para mim, todas as pessoas devem ir pelo menos uma vez na vida ao parque. Visitar aqueles sítios é um aprendizado de humanidade singular. Por isso, fiz questão de levar a companhia até lá, onde pudemos nos conectar com nossos ancestrais nômades e com as comunidades que vivem no entorno. E isso tudo mediado pelo teatro.”

O Duelo foi encenado no anfiteatro da Pedra Furada, que fica no município de São Raimundo Nonato.

Laura Vinci: “Foi uma experiência incrível. A Serra da Capivara é um lugar belíssimo, de uma natureza muito especial. Acho que lá fizemos as apresentações mais bonitas de O Duelo, porque o anfiteatro está dentro do parque e totalmente integrado à natureza. Como no texto do Tchekhov, a ação da natureza participa, interage e se sobrepõe à trama dos personagens. Na serra, ela estava sobre nós, numa potência máxima.”

A artista plástica Laura Vinci assina a cenografia do espetáculo e o ator Aury Porto é um dos produtores, ao lado da atriz Camila Pitanga. “A Camila assistiu à O Idiota, no Rio de Janeiro, se apaixonou pela peça, nós nos apresentamos e ela me falou que queria trabalhar de novo no teatro com a dedicação e a qualidade de pesquisa com que trabalhamos naquele projeto. Depois de alguns meses nos conhecendo, apresentei O Duelo para ela e resolvemos produzi-lo juntos”, conta Aury.

O Duelo é uma adaptação da novela homônima do escritor russo Anton Tchekhov (1860-1904) e, segundo Aury, “um espetáculo para os sentidos e para o debate sobre os nossos duelos atuais. Sempre com a perspectiva de superação do estado duelar. Tchekhov nos propõem uma superação”. A história apresenta o embate entre duas visões de mundo antagônicas, tendo como cenário o Cáucaso e o calor quase alucinógeno do litoral do Mar Negro. Calor que é “um elemento fundamental na história” e acabou por levar os integrantes da mundana companhia para o sertão do Ceará, onde aconteceu boa parte do processo de montagem da peça.

Aury explica tal decisão: “Em primeiro lugar, para que toda a equipe pudesse realizar, através da experiência física, o que eu chamo de sobreposição de cenários, geográfico e humano. O calor e a situação periférica do ponto de vista capitalista são, por exemplo, elementos de semelhança entre o Cáucaso e o sertão cearense. Além disso, os membros da equipe viveram a experiência do desterro, que é uma das características dos personagens. Quase todos são russos vivendo uma espécie de exílio no Cáucaso, assim como a equipe que é formada majoritariamente por paulistas e cariocas. Em segundo lugar, para aproximar o fazer teatral de comunidades onde essa arte não é praticada por ser considerada algo especial, difícil, distante e chic. A cada nova experiência de aproximação entre o teatro e o povo brasileiro, confirmo que o melhor público está entre aqueles que não conhecem essa arte. E esses são a maioria na população.”

A trupe passou seis semanas no sertão do Ceará – nas cidades de Aneiroz, Lavras da Mangabeira e Iracema – onde realizaram ensaios e oficinas com a participação dos moradores locais. Dessa imersão radical em terras distantes, conta Aury, surgiram “elementos cenográficos, de figurino, musicais e interpretativos que podem ser vistos/percebidos em cena. Além das experiências de enriquecimento pessoal incalculáveis”.

O ator vê outras conexões entre a peça e a realidade brasileira: “O que motiva o duelo da história tem relação total com a nossa sociedade humana globalizada, a cada dia mais duelar. A sobrevivência de um ponto de vista depende da eliminação do outro que pensa e vive diferente. E isso também tem relação com a própria invenção do Brasil, feita através da eliminação dos povos diferentes do branco europeu.”

O Duelo encerra a tetralogia russa iniciada pela mundana companhia com a montagem de O Idiota, de Dostoievsky, em 2010. “O que me fascina nos escritores russos é o despudor que eles têm ao perscrutar a condição humana, aliado ao extraordinário talento de narradores e criadores de situações dramáticas. Me vejo nas obras deles e fico excitado com elas. Então, somente lê-las não basta. Como tenho a sorte de contar com artistas parceiros que admiro e que sentem o mesmo que eu diante dessas obras, levá-las para a cena tem sido apenas uma questão de recursos e tempo.”

Sobre o teatro brasileiro, Aury aponta com quais frentes essa arte precisa duelar para sobreviver: “Com a hegemonia da ‘cultura do evento’, com a visão de curto prazo dos patrocinadores, com o horror da burocracia dentro do Ministério da Cultura, com o público anestesiado pelo entretenimento superficial e pobre ao qual está exposto há décadas, com a falta de vigor e perspicácia da crítica especializada. Ah, são tantas as frentes de duelo! E o que deseja o opositor, em todas essas frentes, é a morte. Mas o teatro não pode aceitar esse estado moribundo, porque teatro é vida.”

Depois de ser encenado em Fortaleza, no Parque Nacional da Serra da Capivara, em João Pessoa, Brasília e Belo Horizonte, o espetáculo desembarca em São Paulo em outubro. Georgette Fadel, diretora da peça, explica porque a mundana companhia decidiu estrear longe da capital paulista, sede da trupe. “Ao sairmos do eixo Rio-SP, passamos a ver, com o estranhamento de quem chega a um local diferente, a dificuldade e a descoberta de habitar um espaço com características distintas do local de origem, o que é muito rico para a construção do que acontece no palco.”

Por onde passou, elogia Aury, a montagem, com mais de três horas de duração, recebeu aplausos entusiasmados da plateia. “A peça tem muito texto e discussão de ideias, mas tem também uma encenação muito lírica e um roteiro com muitos lances dramáticos. E os espectadores brasileiros adoram um enredo cheio de tramas.”

Laura Vinci
AÇÃO DA NATUREZA

Escultora, artista intermídia, pintora, desenhista e gravadora, a paulistana Laura Vinci é formada em artes plásticas pela Faap. Em 1998, realizou a sua primeira cenografia, na peça Cacilda!, de José Celso Martinez Corrêa. Com a mundana companhia, Laura foi cenógrafa de três dos quatro espetáculos da tetralogia russa: O Idiota, Pais e Filhos e O Duelo.

Brasileiros – Como você descreveria a cenografia de O Duelo?
Laura Vinci – Acho que poderia dividir a cenografia em dois planos. Como estrutura física, eu e minha assistente, Marília Teixeira, fizemos um conjunto de duas estruturas de ferro oxidado, uma de 12 metros de andaimes, criando uma passarela a dois metros do chão, ligada, por sua vez, a uma outra estrutura, envolvendo duas plateias e a área de cena. Construímos um lugar. Na verdade, um pequeno teatro, onde a plateia está dividida em dois volumes formando um L e tendo cada lado da plateia um ponto de vista. O outro plano é formado pelos elementos que estão dentro da própria cena, ou que são cena eles mesmos. Como a presença do mar: um plástico preto que é manipulado pelos atores. Um amigo foi ver a peça em Belo Horizonte e fez o seguinte comentário: “… parece que nem tem cenário”. Adorei isso porque reflete muito a minha ideia de cenografia. Sempre penso em criar um lugar para a ação dos atores, e é essa ação que qualifica e dinamiza o lugar.

Brasileiros – O que mais seduziu você na história do Tchekhov?
Laura – Na minha primeira leitura da novela original, não tive uma adesão imediata, mas na segunda percebi a forte presença da natureza agindo diretamente na trama, como uma personagem. Daí o texto me ganhou. Entendi que a minha contribuição para a construção da peça seria protagonizar visualmente essa ação da natureza sobre e entre os conflitos humanos de que o texto trata. E isso tem muito a ver com meu trabalho como artista plástica.

Brasileiros – Como foi o processo de criação da cenografia?
Laura – Foi um processo muito intenso. O primeiro plano da cenografia, o espaço propriamente dito, foi projetado antes da peça existir – projetamos o lugar. O segundo plano foi sendo feito junto com o todo da peça. Construímos a encenação e a cenografia, música, figurino, juntos, num processo coletivo, onde todos – atores, músicos, iluminadores e figurinistas – participaram, na medida de suas especificidades. Ficamos morando em três cidades do interior do Ceará, construindo a peça. Boa parte dos objetos de cena foram muito influenciados pelo contexto em que estávamos. Usamos muitos elementos de couro e madeira. E a estrutura maior foi construída em Fortaleza, onde fizemos a estreia nacional.

Brasileiros – De que maneira sua arte está impressa na cenografia do espetáculo?
Laura – Acho que existe um trânsito muito natural das ideias entre o que tenho feito no teatro e a minha produção como artista plástica. Muitas vezes aparece primeiro no teatro e depois vai para o espaço expositivo, ou vice-versa. Como no cenário que fiz para a peça Só, monólogo interpretado pelo João Miguel. Um piso de mármore com um recorte rebaixado no centro, onde, num determinado momento, começava a brotar água. Essa mesma estrutura acabou gerando a minha última exposição na galeria Nara Roesler, No ar, de 2011. Um exemplo oposto é a cena da tempestade em O Duelo. Só no teatro consegui realizar um trabalho que venho tentando fazer desde 2008.

Camila Pitanga
REALIDADE SEM FILTRO

Camila Pitanga procurava por um projeto que valorizasse a pesquisa, a imersão profunda no fazer teatral, para voltar aos palcos. Após assistir à peça O Idiota, da mundana companhia, conheceu Aury Porto, e foi o ator quem apresentou O Duelo para Camila. Seduzida pelo projeto, a atriz embarcou com a trupe para o sertão cearense, e trouxe de lá “um repertório de imagens e de sensações que eu levo comigo para sempre”.  

Brasileiros – Fale um pouco sobre a sua personagem na peça.
Camila Pitanga – Na novela do Tchekhov, Nadiejda é quase um enigma, vemos pistas, rastros dos seus pensamentos em detrimento do ponto de vista que outros personagens fazem sobre ela – bastante diversos um do outro. Ao contrário dos demais personagens, que desenvolvem verdadeiros discursos defendendo suas próprias "teses", defesas racionais ou românticas sobre a vida, Nadiejda não articula nenhum grande discurso. Ela se desenvolve mais no plano da ação, mas uma ação etérea, calcada nas sensações, nos seus desejos. Febre, loucura, melancolia são camadas que se alternam em seu caminho. Ela tem uma relação de atração e repulsa com o Cáucaso. Assim como Laiévski, ela é intelectual e está desiludida com o projeto de morar fora da metrópole. É uma espécie de Madame Bovary: faz dívidas no armazém de Achimianóv, coleciona amantes.

Brasileiros – Como você teve contato com o projeto e o que te seduziu a participar de O Duelo não apenas como atriz, mas também como produtora?
Camila – Conheci a mundana companhia quando assisti à O Idiota, no Rio, e adorei o espetáculo. Eu e o Aury temos amigos em comum, e nesse período nos aproximamos. Eu já tinha o desejo de voltar ao teatro, e estava procurando um caminho que primasse pelo trabalho de pesquisa, de imersão. Num banho de cachoeira no Horto, no Rio de Janeiro, abri meu coração para Aury, dividi meus anseios de artista, minha paixão pelo teatro. Nossa amizade foi se fortalecendo até que ele me trouxe O Duelo, quando estávamos viajando de férias em Carneiros. Fizemos uma leitura e foi um estalo lindo de encantamento. É a minha terceira experiência como produtora teatral. Graças ao patrocínio da Caixa Econômica Federal, já temos garantida a turnê até o final do ano. A logística de fazer o processo de ensaios viajando pelo sertão é complexa e transcorreu lindamente graças à Bia Fonseca. Mas o grande pai do projeto é Aury Porto. A ele tenho total gratidão pela experiência que estou vivendo com essa peça. Ele é um cearense obstinado, luminoso!

Brasileiros – E como foi essa experiência de passar seis semanas no sertão do Ceará?
Camila – Escolhemos cidades pequenas e que não tinham teatro. Lá, oferecemos oficinas de dança, teatro e música. Percebemos talentos, saberes muito especiais. Houve uma troca bonita entre nós, da mundana companhia, e as comunidades. No final dos ensaios abertos, havia debates, oportunidade de cruzarmos os diversos olhares sobre a peça, sobre a realidade de vida de cada cidade e também do país. Os debates, assim como as oficinas, possibilitaram fortalecer a ideia de que a cultura nativa de cada cidade tem que ser valorizada. Em Lavras da Mangabeira, por exemplo, um grupo de teatro nasceu a partir das oficinas oferecidas pelo ator Freddy Allan. E também houve a promessa do prefeito de construir um centro cultural. Em Aneiroz, a banda da cidade, que estava desativada, voltou a tocar. Conhecemos escritores, músicos, artistas que nos trouxeram informações, belezas que afetaram a criação do nosso espetáculo. O que quero dizer com tudo isso é que estar no sertão agregou toda uma experiência que marcou cada um de nós em nossa travessia teatral. Levamos conosco, em nossos corpos, sentimentos, as paisagens do sertão, os sons de grilo, os sapos de Iracema, o baião de dois, as estrelas como refletores em Mucuím, as festas juninas, os banhos nos açudes, o talento da Banda Cabaçal de Jamacarú, o esplendor do Boqueirão do Rio Salgado, em Lavras da Mangabeira, as fogueiras na porta de cada casa na noite de São João em nossa passagem por Missão Velha, os Tocadores de Pife, a dança do coco, a imagem do Padre Cícero em Juazeiro, a hospitalidade que recebemos em cada cidade que passamos, o entusiasmo dos jovens do projeto Casa Grande, no Crato, a arte fantástica do Mestre Expedito, enfim uma memória povoada de abundância criativa e beleza.

Brasileiros – Como essa experiência te enriqueceu como atriz?
Camila – A principal motivação era nos tirar dos nossos centros de pertencimento, no meu caso, o Rio de Janeiro, e no caso da maioria do grupo, de São Paulo. Sair do nosso eixo pessoal para construir um só, da companhia, voltado para a experiência do teatro. Existia também o desejo de conhecer o sertão do Ceará, desenvolver um espetáculo espelhando-se na reação e na convivência com o sertanejo. Nossos personagens são desterrados, estrangeiros no Cáucaso e, nesse processo de itinerância por cidades pequenas, seríamos nós os estrangeiros. Toda essa experiência a que me referi na resposta anterior é um repertório de imagens e de sensações que eu levo comigo para sempre: me estimula muito como atriz, mas é uma riqueza que me engrandece como ser humano. Me aproxima mais do meu país, de uma realidade sem o filtro do jornal, de uma terceira pessoa, é uma vivência direta, crua.

Brasileiros – Existe alguma preparação diferente para encenar um espetáculo com mais de três horas de duração?
Camila – Faço um longo aquecimento vocal sob a orientação da mestra Lúcia Gayotto. Com o grupo, fazemos um trabalho de respiração e concentração conduzida pelo Sergio Siviero, também ator do espetáculo. É um momento importante de sintonização do grupo. 

Brasileiros – Você já tem algum projeto para voltar à TV?
Camila – Até o final deste ano, estou comprometida exclusivamente com o teatro. Devo voltar à televisão no ano que vem.

Texto publicado originalmente na revista Brasileiros. 

Um comentário:

  1. Marcos Guinoza
    Muito boa essa sua matéria com os atores e diretor da peça Duelo. Peça inteligente, densa, profunda, tanto como são profundas as considerações feitas pelos atores e diretor. Gostei de ler assim como gostei de assistir.

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