segunda-feira, 11 de novembro de 2013

Desfecho


Se não tivesse ido ao banco àquela tarde, nada teria acontecido comigo e eu poderia ter assistido ao capítulo final da novela. Passei meses acompanhando a novela e perdi o desfecho. Que merda! É frustrante ficar sem saber como uma história termina. Sinto como se um buraco se abrisse dentro de mim; um buraco que jamais será preenchido.
Coisas incompletas me revoltam, sabe? Lembro que quando tinha 8 ou 9 anos meu pai me deu um quebra-cabeça de cinco mil peças. Demorei semanas para montá-lo e, quando estava para finalizar a montagem, notei que faltava uma peça – a última. Até adoeci por causa disso. Tive febre. Não me conformava com aquela lacuna e, por mais que o quebra-cabeça estivesse praticamente completo, com 4.999 peças, eu só conseguia olhar para o buraco onde a única peça que faltava deveria estar. Fiquei tão frustrado que, depois de um tempo, destruí o quebra-cabeça antes que o quebra-cabeça me destruísse.
Eu não ia ao banco àquela tarde. Tinha planejado sair do escritório e ir direto para casa, onde tomaria um banho, jantaria e, estatelado em meu sofá, assistiria ao capítulo final da novela. Mas Samanta, minha mulher, me ligou na hora do almoço e pediu para eu passar no banco e retirar algum dinheiro.
“Pra quê?”, perguntei.
“Preciso pagar a Matilde, a costureira”.
“Tem que ser hoje?”.
“Sim. Na verdade, era pra gente ter pagado semana passada”.
“E por que não pagamos?”
“Eu esqueci”.
Foi Matilde quem fez o vestido de formatura da minha filha. Um vestido azul claro, copiado de uma foto publicada em uma dessas revistas de celebridades. Quem o usava era uma cantora pop que minha filha adorava. Quando Matilde entregou o vestido, fiquei pasmo. A cópia estava igualzinha ao original. O tecido, claro, era bem mais vagabundo. Mas duvido que alguém conseguisse perceber a diferença. Copiar é uma arte.
“Ok, eu levo o dinheiro”, avisei para Samanta.
No caminho até o banco, parei em uma padaria para tomar um café. Ao meu lado, duas mulheres conversavam.
“Ah, hoje não perco a novela de jeito nenhum!”.
“Nem eu”.
No aparelho de TV atrás do rapaz que preparava o café, vi a cantora pop que minha filha adorava. Ela concedia entrevista para um programa, mas não pude ouvir o que falava. A TV estava sem som.
Terminei de beber o café e segui para o banco. Teria chegado na agência em cinco minutos, retiraria o dinheiro e, de noite, assistiria tranquilamente ao capítulo final da novela. Mas minha filha se formou. Matilde fez o seu vestido de formatura. Minha mulher esqueceu de pagar Matilde na semana passada. E eu tive que ir ao banco àquela tarde.
Que merda! É frustrante ficar sem saber como uma história termina.

*Da série uma imagem, uma história.

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