quinta-feira, 28 de novembro de 2013

O prazer é mau

Escrevi um texto para uma revista. Dei o título de Furniture Fornication. O texto era sobre o artista pop britânico Allen Jones, e "Furniture Fornication" é o nome de uma série de móveis-esculturas realizada por Jones na década de 1960.

Trata-se de arte. Mas tive que procurar outro título para o texto. Os donos da revista acharam Furniture Fornication "demais".

Entenda "demais" como "sexualizado" e, por isso, proibido.

Pois é. Estamos na segunda década do século 21 e as pessoas ainda pensam em sexo (e em qualquer coisa com algum teor sexual) como algo "sujo", "ofensivo", "chocante", "pornográfico".

Culpa, claro, dessa culpa toda que a gente carrega. Como se todo prazer (principalmente o sexual) fosse mau e, por esse motivo, devemos nos sentir culpados toda vez que experimentamos algum prazer. 

Tem um comercial de TV, acho que do iogurte Danio, que mostra uma coxinha, com voz do ator Márcio Garcia, tentando seduzir uma mulher. Aí, surge a voz do locutor: "Olha a fome tentando te enganar outra vez". Como assim: te enganar? Coxinha é bom, porra! E nem precisa vir acompanhada do Márcio Garcia.

Ah, mas coxinha engorda, blá-blá-blá. 

E, assim, vamos acumulando culpas e mais culpas e mais culpas ao nosso já extenso menu de imbecilidades.

Culpa por comer o que gostamos de comer. Culpa por fumar. Culpa por ter barriga. Culpa por ser gordo. Culpa por assistir televisão. Culpa por não se encaixar em certo "padrão de beleza". Culpa por estar triste. Culpa por envelhecer. Culpa por fazer sexo.

No caso do título do meu texto, o argumento para derrubá-lo foi que Furniture Fornication poderia "chocar" algum leitor.

Então, tá.

2 comentários:

  1. Sempre bom ler seus textos, mesmo. E o que me "choca" é sexo ainda "chocar" mesmo quando contextualizado, enfim...

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