quinta-feira, 25 de setembro de 2014

A espera


Ainda não eram nem 7h, mas a estação de trem já estava lotada, com centenas de pessoas espremidas na plataforma. Bárbara, depois de passar pela multidão com grande custo, encontrou um cantinho para ficar, onde permaneceu em pé e imprensada contra a parede durante longos e abafados minutos.
Aos poucos, a estação foi esvaziando e Bárbara, enfim, conseguiu se sentar em um dos bancos da plataforma.
Um homem se sentou ao lado dela.
“Amanhã é 23 de setembro”, ele disse.
Bárbara olhou desconfiada para o homem e nada falou.
“Amanhã começa a primavera”, continuou o homem.
Bárbara abriu um discreto sorriso de alegria: “Nossa, é verdade! Eu adoro a primavera! É a estação da renovação!”.
O homem se apresentou: “Meu nome é Marcelo”.
“O meu é Bárbara.”
Os dois ficaram em silêncio durante alguns minutos. Nesse intervalo de tempo, quatro ou cinco trens pararam na estação e seguiram viagem.
“Está esperando alguém?”, perguntou Marcelo.
“Sim. E você?”
“Também. E, por coincidência, estou esperando uma pessoa que tem os cabelos ruivos e lisos iguais aos seus.”
Bárbara se espantou: “É mesmo muita coincidência! Eu estou esperando uma pessoa que tem os olhos azuis...”
“... iguais aos meus?”, completou Marcelo.
“Iguaizinhos!”
Os dois riram.
A espera se estendeu por horas. E Bárbara e Marcelo continuaram papeando à toa enquanto aguardavam, e descobriram que tinham muitas coisas em comum. Ela era designer de interiores; ele, arquiteto. Ela gostava de nadar; ele, de mergulhar. Ela amava os filmes do Tim Burton; ele também. Ela vivia com um gato; ele, com dois. Ela era áries; ele, sagitário.
Trens e mais trens paravam na estação e os dois, já um tanto aflitos com a demora, olhavam atentamente para os passageiros que desembarcavam, sem avistar quem esperavam.
“Será que o amor da sua vida vem?”, perguntou Marcelo.
“Na verdade, nem sei ainda se ele é o amor da minha vida. Só sei que ele tem os olhos azuis.”
Foi a vez de Marcelo se espantar: “É muita coincidência mesmo! Eu também não sei se ela é o amor da minha vida. Só sei que ela tem os cabelos ruivos e lisos”.
Os dois não riram. Estavam angustiados demais para rir.
“Todos os dias eu venho aqui, fico esperando por ele, mas ele nunca chega”, contou Bárbara, com o semblante triste.
“Até ontem, eu esperava por ela em outra estação. Hoje, resolvi mudar e vim pra cá. Pensei que estivesse esperando no lugar errado.”
“Será que tem lugar certo pra esperar?”
Marcelo não soube o que responder.
Era noite, a estação estava para fechar quando Bárbara e Marcelo, visivelmente desapontados, resolveram ir embora.
“Amanhã você vai estar aqui?”, perguntou Marcelo.
“Acho que não.”
“Mas amanhã começa a primavera. E primavera...”
“... é tempo de renovação.”
“Isso mesmo! Você não pode desistir logo agora!”
Bárbara deu de ombros: “É, quem sabe...”.

Nenhum comentário:

Postar um comentário