sábado, 27 de setembro de 2014

A garota que atirava pedras em vitrines

























O nome dela era Sônia. Mas ela preferia ser chamada de Soninha. Achava o diminutivo do nome mais adequado para uma garota da idade dela: 17 anos.
Soninha é a garota que atirava pedras em vitrines.
A primeira pedra que ela atirou foi em direção à vitrine de uma loja de carros importados, em meio a um protesto contra o aumento da passagem de ônibus.
Soninha, na verdade, nem participava do protesto. Voltava da escola quando viu um bando de garotos encapuzados atirando pedras nas vitrines das lojas e, subitamente, sentiu uma vontade incontrolável de fazer o mesmo.
Fez.
Pegou a maior pedra que encontrou na rua e atirou com toda força contra a vitrine da loja de carros importados. O barulho do vidro se quebrando encheu o coração de Soninha de alegria – uma alegria inédita, viciante, arrebatadora. Logo, a polícia apareceu, jogando bombas de efeito moral contra os manifestantes. A rua se encheu de gás lacrimogêneo, e Soninha, assustada, não sabia para qual lado correr. Foi quando Fábio a pegou pela mão.
“Vem, vamos sair daqui!”, disse.
Os dois correram pelas ruas, indo para longe da confusão. Em uma esquina, pararam, esbaforidos. Fábio retirou o capuz, revelando o rosto bonito para Soninha. Suava. Ela também. Os dois se encararam com curiosidade e, em seguida, riram um para o outro – primeiro Fábio, depois Soninha, depois ambos. E suas risadas ecoaram pelo universo.
“Você precisa esconder seu rosto”, disse Fábio.
Soninha escondeu, cobrindo o rosto com as mãos.
“É sério! Se você aparecer assim, pode ser reconhecida. Tem um monte de câmera vigiando a gente por aí!”
“Quando vai ter outro protesto?”, quis saber Soninha.
Os olhos de Fábio se iluminaram.

No outro protesto, Soninha, ao lado de Fábio, ambos encapuzados, atiraram mais pedras em mais vitrines. E foi ao som do vidro das vitrines se quebrando que os dois, juntos, descobriram o amor. E foi em meio às bombas lançadas pelos policiais que os dois se beijaram pela primeira vez.
Na sala de aula, Soninha ouviu a professora Marta falar sobre os protestos.
“É louvável que a juventude esteja se mobilizando, mas quebrar vitrines nada mais é que vandalismo, não vai mudar o mundo.”
Soninha pensou: “Mudar o mundo? Quem disse que eu quero mudar o mundo?”.
Com Fábio, Soninha seguiu atirando pedras contra as vitrines e, mais confiante, passou a atirar pedras também contra os policiais. “Seus repressores!”, ela gritava, sem saber muito bem porque acusava os policiais de “repressores”. E foi durante um quebra-quebra desses que Soninha se desequilibrou e caiu. Fábio viu quando ela se desequilibrou, caiu, bateu a cabeça no meio-fio e perdeu os sentidos. Fábio correu para socorrê-la. Mas Soninha não resistiu ao ferimento.
No dia seguinte, a imagem do corpo de Soninha caído no meio da rua estampou a primeira página dos principais jornais do país. Soninha virou o grande símbolo da luta por um mundo melhor, provocando comoção na população, e inúmeras manifestações aconteceram em homenagem à garota que atirava pedras em vitrines apenas para se livrar do tédio.    

3 comentários:

  1. Parabéns Marcos por detectar e expor o grande símbolo das intituladas "manifestações de junho": uma juventude desesperançado e por vezes desinformada tornando-se presas fáceis para grupos de arruaceiros. Educação. Educação. Educação. Uma juventude que lê pouco e bons livros fica sujeita a isso. Infelizmente. Abraços!!! Qualquer semelhança com nomes e situações teria sido mera coincidência?

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