sexta-feira, 26 de setembro de 2014

Paixão coletiva

Sabe qual é a única grande paixão coletiva do nosso tempo? 

A apatia. 

Pelo menos é isso que fala o personagem Jean-Marc no livro A Identidade, de Milan Kundera.

"Eu diria que a quantidade de tédio, se o tédio for mensurável, é muito maior hoje do que no passado. Porque as profissões antigas, pelo menos a maioria delas, eram impensáveis sem um envolvimento apaixonado: os camponeses apaixonados por sua terra; meu avô, o mágico de belas mesas; sapateiros que conheciam de cor os pés de cada aldeão; os madeireiros; os jardineiros; provavelmente até os soldados matavam com paixão naquela época. O significado da vida não era uma questão; estava lá com eles, muito naturalmente, em suas oficinas, em seus campos. Cada profissão havia criado sua própria mentalidade, sua própria maneira de ser. Um médico pensava de maneira diferente de um camponês, um soldado comportava-se diferente de um professor. Hoje somos todos semelhantes, todos unidos por nossa apatia compartilhada em relação a nosso trabalho. Essa mesma apatia tornou-se uma paixão. A única grande paixão coletiva de nosso tempo."

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