terça-feira, 23 de setembro de 2014

Tempo livre

ELIZA BENNETT

Silvia sabia bordar. Sabia técnicas de jardinagem. Sabia contar histórias para crianças. Sabia utilizar o Corel Draw. Sabia organizar eventos. Sabia escrever roteiros para cinema e TV. Sabia dançar flamenco. Sabia decorar vitrines. Sabia auriculopuntura. Sabia falar em público. Sabia confeitar bolos. Sabia cuidar de idosos. Sabia desenhar joias e bijuterias. Sabia editar vídeos no Adobe Première. E sabia fazer striptease.
Silvia agora queria saber como adestrar cães.
“Mas você nem tem um cão!”, estranhou Maria Lúcia.
“Não tenho, mas vou ter.”
“Ah, tá, entendi. Você primeiro quer aprender como adestrar para depois ter um cão.”
“Isso mesmo! Quero me preparar antes.”
Na manhã seguinte, Silvia acordou bem-disposta, tomou um banho, vestiu-se, engoliu apressada o café preto e amargo, e foi à escola de adestramento de cães para fazer a inscrição. A mulher que atendeu Silvia explicou o que ela aprenderia no curso.
“Aqui, você vai aprender a metodologia de recompensas e estímulos positivos, que permitem aos cães assimilarem rapidamente o aprendizado. Vamos instruir você sobre como obter do seu cão o comportamento que deseja, de forma rápida e muito eficaz.”
“E quanto tempo dura o curso?”
“São dois dias.”
“Dois dias?!”, surpreendeu-se Silvia.
“Sim”, confirmou a mulher.
“Mas dois dias são suficientes pra eu aprender a adestrar um cão?”
“Sim, com certeza.”
Silvia fez uma expressão de contrariedade, erguendo levemente as sobrancelhas, e perguntou: “Vocês não têm um curso com duração maior?”.
A mulher notou a contrariedade no semblante de Silvia e procurou tranquilizá-la: “Não se preocupe. Eu garanto que dois dias são mais do que suficientes pra você aprender a adestrar o seu cão”.
“Não é isso... É que... Tudo bem, eu vou me inscrever.”
Nos dois dias de curso, Silvia aprendeu a ensinar o cão a andar junto, sentar, deitar e dar as patas. Também aprendeu a ensinar o cão a fazer as necessidades no local escolhido; a não destruir móveis e objetos; a não latir em excesso; a não pular sobre as pessoas; a não ter comportamento agressivo; a não roubar comida da mesa; a não pegar roupas no varal.
Ao término das aulas, Silvia recebeu o certificado de conclusão do curso e, cerca de uma semana depois, a visita inesperada da amiga Maria Lúcia.
“O que é isso?!”, assustou-se Silvia ao abrir a porta.
“Um cãozinho, ora!”
“Eu sei que é...”
“Eu vi esse bichinho fofo na pet shop e não resisti. Como você disse que queria ter um cachorro, resolvi te presentear”, contou Maria Lúcia, interrompendo a amiga e entrando no apartamento.
Silvia permaneceu em silêncio.
“Que cara é essa? Você não gostou dele?”, perguntou Maria Lúcia.
“Gostei...”
“Ele é lindo, não é?”
“É sim... é lindo.”
Por sugestão de Maria Lúcia, chamaram o cãozinho de Pitoco.
“O homem da pet shop disse que ele não cresce muito mais que isso, é ideal para apartamento.”
“Entendo.”
Maria Lúcia se foi e Silvia ficou lá, com Pitoco, sem saber o que fazer com Pitoco, que andava de um lado para o outro sem parar, fuçando cada canto do apartamento. Silvia, na verdade, nunca quis realmente ter um cão. Dissera para a amiga que teria um apenas para legitimar o seu súbito interesse em fazer um curso de adestramento de cães.
“E agora, meu Deus, o que eu faço com esse bichinho?”
Da mesma forma que aprendera a bordar e nunca tinha bordado nem um pano de prato; da mesma forma que aprendera a fazer striptease e nunca tinha feito striptease para homem nenhum, Silvia agora sabia adestrar cães, mas jamais cogitara adestrar cão algum.
Com Pitoco no colo, ela bateu na porta da casa de Maria Lúcia.
“Oi, Silvia, que surpresa!”
“Pega, ele é seu!”, disse Silvia, jogando o cãozinho nos braços da outra.
“O que aconteceu, amiga?!”, perguntou Maria Lúcia, surpresa.
Silvia nada respondeu. Virou-se e foi embora. Já estava atrasada para a primeira aula do curso de finlandês.
     

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