sexta-feira, 31 de outubro de 2014

Sorte

Para ajudar uma instituição de caridade, João comprou dois números de uma rifa destinada a arrecadar fundos para a reforma da casa onde a instituição acolhe adolescentes grávidas em situação de risco. Mas João não participou da rifa pensando em ganhar o prêmio. Até porque, devido ao seu azar congênito, ele sabia que a chance de ganhar o prêmio era praticamente zero. Também não participou por ser um homem generoso. Na verdade, ele fez uma aposta com o imponderável. Não falam por aí que “quem faz o bem, recebe em dobro”? Pois era isso que João queria: ser recompensado em dobro por ter feito o bem àquelas meninas grávidas. E o fez por duas vezes, comprando dois números da tal rifa.

O ano não fora bom para João. Em todas as situações em que havia uma chance – mínima que fosse – de ele se dar mal, João se deu mal. Passando por dificuldades financeiras, ele sentia que necessitava de uma mãozinha do destino, de uma ajudazinha divina para sair do buraco, e, cheio de esperança, aguardou ansioso por sua recompensa. Chegou a jogar na loteria. Vai que a recompensa era ele se tornar um milionário.

Mas o tempo passou e a recompensa não veio. O que veio – para enorme surpresa de João – foi o prêmio. Sim, ele ganhou o prêmio, e a instituição não demorou a entregá-lo.

“Eu não quero isso!”, João disse para os homens que vieram trazer o prêmio.

“Desculpe, mas o senhor ganhou.”

“Eu sei, mas eu não quero! Eu abro mão do prêmio. Vocês podem levar de volta!”

“Sinto muito, senhor, mas a gente não pode levar de volta. Fomos pagos só para trazer.”

 Depois de muita discussão com os entregadores, João teve que aceitar o prêmio e, para acomodá-lo na quitinete onde vive com Alfredo, seu vira-lata de estimação, teve que desorganizar os móveis, amontoando-os em um canto da sala, e colocar o prêmio no outro canto. A sala está quase intransitável, e Alfredo ainda não se acostumou com o “intruso”. Vez e outra, tenta expulsá-lo da quitinete com latidos enfurecidos.

Como nunca ganhara nada em sorteios, João jamais acreditou que desta vez ganharia. O que ele queria era a recompensa (em dobro!) por ter feito o bem. Mas a sorte resolveu visitá-lo e João agora tem um piano de meia cauda, velho e desafinado, no meio da sala, atravancando ainda mais a sua vida.

“Se fosse um violão ou uma flauta, vá lá! Mas um piano?!” 

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