quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Vontades cegas

Tem um manual, chamado Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM, na sigla em inglês).

Conhecido como a “bíblia da psiquiatria”, esse manual foi lançado pela primeira vez em 1952 pela Associação Americana de Psiquiatria e continha 130 páginas, com 106 categorias de desordens mentais.

Já era maluquice bastante, mas veja o que aconteceu nos anos seguintes.

Lançado em 1968, o DSM-II tinha 182 desordens em 134 páginas. Doze anos depois, em 1980, veio o DSM-III, com 265 categorias de maluquices em 494 páginas. Em 1994, o DSM-IV listava 297 transtornos em 886 páginas. E, na mais recente edição (DSM-5), lançada em 2013, são mais de 300 transtornos em 992 páginas.

O manual é polêmico. Muitos especialistas dizem que ele amplia o número de doenças, provocando mais epidemias de transtornos mentais – e, consequentemente, aumentando o lucro da indústria farmacêutica.

Pode ser.

E pode ser também que estejamos mesmo ficando cada vez mais malucos. Hoje, temos tanta coisa pra fazer, pra pensar, pra resolver, pra cuidar, pra planejar, pra sonhar, que, muitas vezes, a cabeça não aguenta e dá um nó.

Eu, com certeza, estou bem mais maluco do que era há vinte anos. Só pra você ter uma ideia, há vinte anos, eu não falava sozinho.

Mas também acho que estamos ficando cada vez mais mimadinhos. É um tal de reclamar da vida no Facebook, no Twitter, em conversas de elevador. Olha, a vida é o que é – “uma ave que vai cada segundo conquistando seu voo”, como escreveu João Cabral de Melo Neto – e não tem culpa se seu chefe é um filho da puta, se seu relacionamento não deu certo, se o mundo é cruel.

Estava assistindo a uma entrevista do comediante americano Louis CK. Repare no que ele fala sobre os nossos mimimis de aeroporto:

Atraso, sério? Nova York até a Califórnia em 5 horas? Costumavam fazer esse trajeto em 30 anos, e um monte de gente morreria nesse período ou teria filhos. Agora você assiste a um filme, solta um barro e está em casa! Todo mundo, em todos os aviões, deveria ficar constantemente falando: ‘Oh meu Deus! Uau!’. Você voou pelos ares como um pássaro, você fez parte do milagre de humanos voando! Você está sentado em uma cadeira no céu! Voando! É fantástico!”

Sim, vivemos tempos incríveis. Podemos voar, mas somos tão mal-agradecidos que preferimos reclamar do amendoim servido nos voos. 

Enquanto, lá atrás, nossos antepassados tinham que fazer longas caminhadas diárias para conseguir o que comer, nós temos carros, elevadores, escadas rolantes, smartphones, máquinas de lavar, fornos micro-ondas e, se sentimos fome, basta pegar o telefone e pedir uma pizza. Mesmo assim, parece que nunca estamos satisfeitos, parece que sempre nos falta alguma coisa. Aí, enlouquecemos. Aí, viramos estatística e contribuímos para aumentar o número de desordens mentais do tal DSM.

Sei lá, acho que esse sentimento de incompletude é do humano e jamais vamos nos livrar desse apetite insaciável das nossas vontades cegas.

3 comentários:

  1. Cara muito bom seu blog só assunto aberto com intelecto!

    ResponderExcluir
  2. Adorei passar por aqui!!!magnífico!!! Sou depressiva a anos a procura da minha felicidade através desses loucos remédios!!!!

    ResponderExcluir