segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

Ataque de pânico

Certo dia, eu estava em minha sala, checando e-mails, quando vagamente, nas bordas da consciência, notei que estava me sentindo um pouco quente.

Está fazendo calor aqui? De repente, os mecanismos de meu corpo ocuparam o centro da minha consciência. 

Estarei com febre? Ficando doente? Vou desmaiar? Será que vou vomitar? Estarei, de algum modo, incapacitado antes de poder sair daqui ou chamar alguém?

Estou escrevendo um livro sobre a ansiedade. Estou repleto de informações sobre o fenômeno do pânico. Conheço tanto quanto qualquer leigo a neuromecânica de um ataque. Já tive milhares deles. Caberia imaginar que esse conhecimento e essa experiência ajudassem. E às vezes, de fato, ajudam. Por reconhecer de imediato os sintomas de um ataque de pânico, às vezes consigo eliminá-lo ou, ao menos, restringi-lo ao que se chama um ataque de pânico com sintomas limitados. Contudo, muitas vezes meu diálogo interno transcorre mais ou menos assim:

Você só está tendo um ataque de pânico. Está bem. Relaxe.

E se não for um ataque de pânico? E se dessa vez eu estiver mesmo doente? E se eu estiver tendo um ataque do coração ou um derrame?

É sempre um ataque de pânico. Faça seus exercícios respiratórios. Fique calmo. Você está bem.

Mas, e se eu não estiver bem?

Você está bem. Em cada uma das últimas 782 vezes em que você estava tendo um ataque de pânico e pensou que talvez pudesse não ser um ataque de pânico, era um ataque de pânico.

O.K. Estou relaxando. Inspirando e expirando. Repassando os pensamentos tranquilizantes que as fitas de meditação me ensinaram. Mas só porque os últimos 782 casos foram ataques de pânico, isso não quer dizer que os 783° também seja. Certo? Estou com dor de estômago.

Você tem razão. Vamos sair daqui.

Sentado em minha sala, enquanto algo como essa sequencia de pensamentos passa por minha cabeça, deixo de me sentir um pouco quente para agora me sentir abrasar. Começo a suar. O lado esquerdo de meu rosto começa a formigar, e logo se entorpece (Viu?, penso com meus botões, talvez eu esteja tendo um derrame!) Agora sinto uma pressão no peito. Percebo, de repente, que as lâmpadas fluorescentes em minha sala acendem e apagam de modo intermitente, piscam tanto que me deixam tonto. Sinto uma terrível sensação de vertigem, como se os móveis estivessem rodopiando, como seu eu estivesse na iminência de cair para a frente. Estou prestes a me estatelar de cara no chão. Agarro-me à cadeira para não cair. Enquanto a tontura aumenta e tudo na sala gira em torno de mim, meu ambiente físico já não parece muito real. É como se uma cortina diáfana se interpusesse entre mim e o mundo.

Meus pensamentos disparam, porém os mais intensos são: Vou vomitar. Vou morrer. Tenho que sair daqui.

Cambaleando, ergo-me da cadeira, agora suando em bicas. Toda a minha atenção se volta para a fuga: preciso sair da minha sala, do edifício, daquela situação. Se vou ter um derrame, vomitar ou morrer, que seja fora do edifício. Vou tentar sair correndo.

Esperando desesperadamente não ser detido em meu caminho rumo às escadas, abro a porta e saio, apressado, para o vestíbulo do elevador. Saio pela porta de incêndio para as escadas e, com uma certa sensação de alívio por ter chegado até esse ponto, começo a descer os sete andares. Ao chegar ao terceiro, minhas pernas tremem. Se eu estivesse pensando de modo racional - se pudesse acalmar as amígdalas e usar melhor meu neocórtex -, concluiria, sem erro, que esse tremor é o resultado natural de uma resposta autônoma do tipo lutar ou fugir (que provoca tremores nos músculos esqueléticos) combinada com os efeitos do esforço físico. Mas já muito avançado na lógica catastrofista do pânico para ter acesso a meu cérebro racional, concluo que o tremor de minhas pernas é um sintoma de exaustão física total e que, de fato, vou morrer. Ao descer os dois lances finais, estou imaginando se conseguirei falar com minha mulher pelo celular para lhe dizer que a amo e pedir-lhe que providencie um socorro antes que eu perca a consciência e, talvez, morra.

A porta das escadas para o exterior está trancada. Detectores de movimento deveriam perceber que alguém está vindo do interior e abri-la automaticamente. Por alguma razão, talvez porque eu esteja descendo depressa demais, eles não foram ativados. Choco-me com a porta e caio de costas.

Bati na porta com força suficiente para deslocar a moldura de plástico em torno do sinal luminoso, vermelho, de saída. A moldura bate em minha cabeça com um baque surdo e cai com estrépito no chão.

No saguão, o segurança escuta a barulheira, mete a cabeça no poço da escada e dá comigo sentado no chão, atordoado, com a moldura do letreiro de saída ao meu lado. "O que está havendo?", pergunta.

"Estou doente", respondo, e quem diria que não estou?  

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Trecho do livro Meus Tempos de Ansiedade, de Scott Stossel.

Um comentário:

  1. A máxima para esse trecho: "Seria cômico, se não fosse trágico..."

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