domingo, 7 de junho de 2015

Te amo, filho


Meu filho é autor de um livro que ficou por meses na lista dos mais vendidos e eu – mãe dedicada, sempre pronta a ajudá-lo no que for preciso – contribuí do jeito que podia para divulgar a obra, comprando vários exemplares e distribuindo-os para os meus vizinhos aqui no prédio onde moro.
“Obrigada e parabéns!”, disse Inês, quando lhe entreguei o exemplar. “Vou começar a ler hoje mesmo!”
Inês era a pessoa mais próxima de mim no prédio. A vizinha com quem eu trocava receitas de bolo e passava tardes inteiras ouvindo ela falar mal dos outros moradores. Fuxiqueira, Inês me divertia com observações ferinas sobre o cabelo ruim de uma ou a bunda murcha da outra. Nas áreas comuns do edifício, ela era gentil e educada. Entre paredes, soltava a língua e o veneno escorria pelo seu queixo estreito e comprido.
“Você é a única em quem confio”, Inês falava, e eu fingia acreditar.          
O sucesso do livro levou meu filho a aparecer até na televisão, dando entrevista em um programa da maior emissora do país. Com Frida no colo, minha yorkshire, assisti à entrevista emocionada, com os olhos marejados. Qual mãe não fica toda boba de ver o filho alcançar o seu objetivo? Meu filho sonhava ser escritor desde menino, quando enchia páginas e mais páginas de cadernos com histórias de monstros e super-heróis.    
Na entrevista que deu para o programa de televisão, ele contou que demorou dois anos para escrever o livro e que teve muita dificuldade para encontrar uma editora interessada em publicá-lo.
“Ainda bem que não desisti no primeiro não”, ele disse.
Meu filho é um homem muito determinado.
Lá pelo fim da entrevista, ele mudou o semblante, pareceu entristecer e, com o olhar vago, respondendo à pergunta da jornalista, falou uma coisa que me deixou intrigada. Meu filho disse que a Eleonora, a mãe do Paulo Henrique, o personagem principal do livro dele, tinha sido inspirada em mim.
“A Eleonora foi inspirada na minha mãe”, ele disse.
“Que lorota é essa?”, desconfiei. 
Eu li o livro do meu filho assim que foi lançado e não existe nenhuma semelhança entre mim e a Eleonora. Nas palavras do meu filho, ela parecia abrigar um rinoceronte dentro dela. Era corpulenta, tinha a cabeça grande, o tórax largo, as pernas curtas, e era grossa e enrugada como a pele do animal que a habitava. Eu não sou assim. Longe disso. Sou magérrima, sou alta. Se fosse me comparar a um animal, seria uma girafa, jamais um rinoceronte.
Em outra passagem, meu filho escreve que Eleonora está o tempo todo com o dedo em riste e que jamais beijou Paulo Henrique, nem quando Paulo Henrique era bebê. Isso não condiz comigo, de modo algum! Sou uma mãe compreensiva e afetuosa, e sempre cobri meu filho de beijos.
Mais adiante, Eleonora, com sua personalidade fria e controladora, é acusada pelo meu filho de ter arruinado Paulo Henrique emocionalmente, fazendo o garoto se tornar um adolescente problemático, arredio, um consumidor compulsivo de ansiolíticos.
Ora, eu nunca fui fria e controladora.
Telefonei para o meu filho.
“Oi, mãe.”
“Filho, por que você disse na televisão que a Eleonora, a mãe do Paulo Henrique, foi inspirada em mim?”
Meu filho riu.
“A senhora assistiu?”
“Assisti.”
“Não se preocupa com isso, mãe. Foi só uma bobagem que me veio à cabeça falar naquela hora.”
“Mas por quê?”
“Pensei que seria bom para o marketing do livro. Sabe como é, as pessoas gostam de histórias baseadas em fatos reais.”
“Entendi.”
“E é claro que a megera da Eleonora não tem nada a ver com você. A senhora sempre foi uma mãe incrível.”
“Eu fui, não fui?”
“Claro que sim, a senhora é a melhor mãe do mundo.”
“Que bom ouvir isso, filho.”
“Mãe, vou ter que desligar. Viajo hoje à noite pra Portugal e ainda nem fiz as malas.”
“Portugal?”
“Esqueceu, mãe? Meu livro está sendo lançado lá.”
“Ah, sim, tinha me esquecido.”
“Fico uma semana.”
“Tá bom, filho, não quero te atrasar, vai lá fazer as malas. Faça uma boa viagem, um beijo, te amo.”
“Também te amo, mãe, um beijo.”
Desliguei o telefone mais tranquila, feliz por saber que a Eleonora não era inspirada em mim. Por um momento, cheguei a pensar que tinha sido uma péssima mãe para o meu filho.
Vesti-me para ir ao supermercado, precisava comprar ração para Frida. Encontrei Inês.
“Olá, Inês”, cumprimentei.
Ela embicou os lábios, girou os olhos pelo elevador e os fixou em um ponto afastado de mim.
“Você está bem?”
Com os braços cruzados sobre o peito, ela moveu o corpo de uma perna para a outra, expirou o ar com afetação e continuou em silêncio.
Sem entender por que ela me esnobava daquela maneira, resolvi me calar e chegamos ao térreo sem falar uma com a outra. Mal o elevador parou, Inês saiu desembestada pela porta, fugindo de mim, como se eu fosse portadora de uma doença contagiosa mortal.
“Mulher maluca!”, pensei. “Depois leva outro tabefe do marido e vem correndo me procurar de olho roxo!”
Inês, às vezes, levava tabefes do marido.
De noite, no intervalo da novela, recebi um telefonema.
“Alô”, atendi.
“Você é um ser humano desprezível!”, disse a voz feminina do outro lado da linha, e desligou.
Fiquei segurando o aparelho no ouvido durante algum tempo, confusa, sem saber se aquele telefonema era mesmo para mim. E se era, por que alguém me chamaria de “ser humano desprezível”? Coloquei o aparelho de volta na base e fui para a cozinha preparar o meu chá. Toda noite, antes de ir para a cama, tomo uma xícara de chá de camomila para acalmar os meus nervos.
Como havia prometido, meu filho telefonou no dia seguinte para avisar que chegara bem em Portugal.
“Você levou casaco? Deve estar frio aí.”
“Não se preocupa, mãe. Estou bem agasalhado.”
“Aproveita a viagem, filho.”
“Vou aproveitar, sim. Te amo, mãe.”
“Te amo, filho.”
De tarde, logo depois do almoço, vesti uma roupa leve de algodão e peguei a coleira de Frida. Ao me ver com a coleira, Frida se enche de alegria canina, agitando o rabo e andando alvoroçada pelo apartamento.
“Vem cá, filhota, chegou a hora do seu passeio.”
Fomos para o parque que fica a duas quadras do prédio onde moro e onde todos os moradores do bairro passeiam com seus cachorros.
Elisângela, a doceira do 21, estava lá com seu poodle.
“Pensei que a senhora fosse uma pessoa boa”, ela falou, assim que me aproximei com Frida.
“Do que você tá falando?”
“Eu vi a entrevista do seu filho na televisão.”
“Ele estava lindo, não estava?”
“A senhora foi uma mãe... Nem sei que palavra usar para descrever o que passei a sentir pela senhora.”
“Como assim? Do que você tá falando?”
“Tá se fazendo de desentendida, é?”
“Não, Elisângela. Eu realmente não sei o que tá acontecendo aqui.”
“Eu ouvi muito bem! Seu filho falou que aquela Eleonora do livro, que é ruim como o capeta, foi inspirada na senhora...”. Ela subiu as sobrancelhas e contraiu os lábios. “A senhora devia estar na cadeia!”
“Elisângela, meu filho falou aquilo...”. Eu ia explicar para ela que meu filho inventara aquela história, mas achei melhor me calar.
“Ah, quer saber? Pense o que quiser!”, eu disse.
“A senhora é uma mulher cruel!”
Não dei ouvidos para a última acusação de Elisângela, virei as costas para ela, chamei Frida – “vem, filhota” – e fui passear com a minha cachorra pelo parque. Primeiro foi Inês, que me ignorou no elevador. Depois o telefonema da noite anterior, de uma voz feminina me chamando de “ser humano desprezível”. Agora, Elisângela, dizendo que eu era uma “mulher cruel”. De repente, eu tinha me transformado na perversa Eleonora: a mãe-monstro, a mãe capaz de largar o filho pequeno sozinho em casa, ardendo em febre.
Um dia, Eleonora teve que escolher entre Paulo Henrique e outras crianças, e escolheu as outras crianças. O menino estava ardendo em febre, mas aquele era um dia especial, o dia em que Eleonora fazia caridade e levava amor, carinho e brinquedos fajutos para os órfãos ajudados pela igreja que ela frequentava. Toda vestida de bege, ela foi ao quarto do filho e colocou a palma da mão sobre a testa dele. Diagnóstico: “Está um pouco quente, mas nada demais”. Em seguida, mandou Paulo Henrique não botar fogo na casa e, sem se despedir, partiu para o orfanato. Fraco, com tremedeiras, o menino adormeceu com sua febre.   
Sentindo uma repentina inquietação, como se algo ruim estivesse para acontecer comigo, decidi encurtar o passeio de Frida e voltei para casa.
De noite, recebi outro telefonema.
“Alô”, atendi.
“Você é um ser humano desprezível!”, disse de novo a voz feminina do outro lado da linha, e desligou.
A chaleira apitou, avisando que a água tinha fervido. Fui para a cozinha, desliguei o fogo, peguei a chaleira e despejei a água borbulhante na xícara. A fumaça úmida subiu, espalhando o perfume de camomila pelo ar. Não adocei o chá, prefiro bebê-lo amargo. Voltei para a sala com a xícara de chá e apanhei o livro do meu filho na estante. Folheei o livro, parei em uma página qualquer e li um trecho: ... Eleonora enfiou a unha do indicador na sola do pezinho do bebê, perfurando a pele fina e frágil...
Fechei o livro, enojada.
“Como essas pessoas podem acreditar que eu faria algo assim tão terrível em uma criança?”
Terminei de beber o chá e fui para a cama.
Dormi mal. Quer dizer, nem dormi. Quer dizer, acho que dormi umas três horas. Um sono agitado, assombrado por pesadelos. Sonhei que eu estava no parque, passeando com Frida, e todas as pessoas apontavam os dedos para mim, encarando-me com ódio assustador. Os cachorros rosnavam, com os dentes à mostra. De repente, as pessoas soltaram os cachorros das coleiras e os animais, enfurecidos, começaram a correr em minha direção, e, à medida que se aproximavam, meu coração batia mais acelerado, minha garganta parecia se fechar, sentia meus pés formigarem. Eu queria me mover, fugir dali, mas, paralisada de medo, não conseguia. Quando os cães estavam para me alcançar, acordei sobressaltada, com o lençol encharcado de suor, a boca seca e a respiração ofegante. Olhei em volta e, aliviada, reconheci o meu quarto.
“Eu não sou a Eleonora!”, disse para mim mesma em voz alta.
Depois de me lavar, saí para ir à padaria, como costumava fazer todas as manhãs. Encontrei os dois filhos de Inês, Carlinhos e Miguel. Os meninos, de 12 e 14 anos, estavam indo para a escola, com suas mochilas coloridas penduradas nas costas. Quando entrei no elevador, eles se calaram imediatamente e olharam para mim com curiosidade e desconfiança, como se fosse a primeira vez que me viam.
“Que caras são essas, meninos?”
Eles nada responderam.
“Vocês não vão falar comigo?”
“Minha mãe mandou a gente ficar longe de você”, disse Miguel, engrossando a voz e estufando o peito. Creio que para me amedrontar.
“E vocês sabem por quê?”
“Ela falou que você é uma pessoa ruim, que enganou todo mundo com essa cara de velha boazinha.”
“Hm, entendi.”
“Minha mãe falou que a senhora tentou afogar o seu filho quando ele ainda era um bebê. É verdade?”, perguntou Carlinhos, referindo-se a um trecho do livro: Certa manhã, Eleonora quase afogou Paulo Henrique na banheira. Fingiu distração e deixou o menino escorregar para debaixo da água morna.
Fiquei chocada. Era um absurdo Inês falar uma coisa dessa sobre mim para os próprios filhos.
“Isso não é verdade, Carlinhos. Eu amo o meu filho e sempre tratei ele com carinho, assim como trato vocês. Algumas vez eu fiz algum mal a vocês?”
“Não”, murmurou Carlinhos.
Assim que o elevador parou no térreo, os meninos, sem pedir licença, saíram em disparada. Miguel, de propósito – sei que foi de propósito – arremessou seu corpo contra o meu. Senti o ombro dele bater com força nas minhas costas e, com o encontrão, fui jogada para fora do elevador. Caí de joelhos no chão.
José, o porteiro do prédio, correu para me socorrer.
“A senhora está bem?”, perguntou, segurando meu braço e me ajudando a levantar.
“Acho que quebrei o pulso, José.”
No hospital, após um exame de raio-X, engessaram minha mão e meu antebraço esquerdos. O médico receitou um analgésico. Na volta, encontrei Inês no lobby do prédio. Ela viu o gesso e virou o rosto.
“Olá, Inês.”
Como da outra vez, ela me ignorou.
“Foi o Miguel que fez isso comigo”, falei, erguendo o braço engessado.
“Foi ele sim, dona Inês, eu vi”, confirmou José.    
“Acho pouco”, disse Inês.
“Acha pouco?! Seu filho me empurrou! Eu quebrei o pulso!”
“Aqui se faz, aqui se paga, já ouviu falar?”
“Mas eu não fiz nada!”
Inês tomou o elevador e eu preferi não subir junto com ela. José, espantado com a conversa que acabara de ouvir, perguntou se eu e Inês tínhamos brigado.
“Acho que sim”, respondi.
“A senhora e a dona Inês eram tão amigas”, ele disse.  
Sorri sem graça para José, entrei no elevador e apertei o botão do nono andar. Estava exausta, meus joelhos doíam. Queria chegar logo em casa, tirar os sapatos, tomar um banho, brincar com Frida. Mas antes que pudesse entrar em casa, fui surpreendida por outro insulto. Alguém havia pichado a porta do meu apartamento: MONSTRA!      
O susto me emudeceu. Fiquei não sei quanto tempo com a boca entreaberta olhando para a pichação, pensando no meu filho, lembrando da vez em que ele xingou a professora de “burra”, foi suspenso por três dias e eu dei uma bela chinelada na bunda dele. Foi a única vez na vida que bati no meu filho. A única! E eu me senti tão mal com isso que, depois do castigo, comprei o videogame que meu filho tanto queria.    
Mais tarde, no intervalo da novela, o telefone tocou. Eu não atendi.
Nos dias seguintes, notei que os meus vizinhos, os mais próximos, aqueles com quem eu mais conversava, frequentava as casas, e para quem eu tinha dado um exemplar do livro do meu filho, passaram a me evitar. Os filhos desses vizinhos me provocavam com risadinhas zombeteiras e indiretas, sem que os pais os repreendessem. Fui isolada, afastada do convívio de todos eles, e, ultimamente, com medo de ser agredida, quase não tenho saído de casa, nem para passear com Frida, que, como eu, anda amuada e triste.
Sim, eu podia ter falado a verdade. Eu podia ter falado que a Eleonora não tinha sido inspirada em mim. Mas falar a verdade significava desmentir o meu filho. E isso eu não faria de jeito nenhum.
Eu amo o meu filho mais que tudo nesta vida.  

* * * * *

Sentado no sofá da sala, Gerson termina de ler o conto, acende um cigarro e permanece pensativo. Tinha se mudado para aquela casa com a mulher, Helena, há menos de uma semana. Entre as coisas que os antigos moradores tinham abandonado na casa, encontrara, em um dos quartos, um caderno com vários contos escritos com caneta esferográfica azul. A letra, trêmula e hesitante, parecia ser de alguém ainda jovem. Apaixonado por livros, Gerson resolvera ler aquelas pequenas histórias e, cismado com o conto que acabara de ler, chama por sua mulher.
“Helena?”
Da cozinha, onde ainda desencaixota panelas e louças, a mulher pergunta o que o marido quer: “Que foi?”
“Como era mesmo o nome da antiga dona desta casa?”
“Eleonora.”
“Ela tinha um filho.”
“Sim, o Paulo Henrique.”
Helena surge na sala.
“Por que você tá perguntando isso?”
“Você precisa ler isso aqui, querida”, responde Gerson, mostrando o caderno de Paulo Henrique para a mulher.

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