quinta-feira, 13 de agosto de 2015

saudades de mim

Envelhecer é um verbo que comecei a conjugar em primeira pessoa recentemente.

Aos 20 ou 30, envelhecer era algo que acontecia com os outros, não comigo. Na verdade, eu nem pensava nisso. E tinha a impressão de que algumas pessoas já nasciam velhas. Só lembro da Hebe Camargo e do Oscar Niemeyer velhos. A imagem que guardo das minhas duas avós também é essa, como se elas tivessem sido velhinhas a vida toda.


Aos 20 ou 30, ainda estamos naquela fase de planejar e construir o futuro e não temos tempo de ficar divagando sobre a velhice. Depois dos 40 é que as coisas começam a mudar. O tal futuro chega e, ao contrário do que eu imaginava, percebo que ele não se tornou um lugar tão legal assim. Desconfiado, cada vez mais viro a cabeça para trás, olhando para minhas memórias. Acho que vem daí essa saudade que tenho sentido de mim.


Saudade de quando tinha fôlego para jogar bola na praia. Saudade dos meus amigos de juventude. Saudade do tatear a vida com expectativa. Saudade das pessoas que passaram por mim e se foram. Saudade do meu pai. Saudade das deliciosas gargalhadas de tia Vanda. Saudade das conversas com o Maurão. Saudade da Nikita. Saudade de fazer burradas e rir delas. Saudade da época em que eu acreditava em tudo que a minha vida podia ter sido. Saudade do tempo que se foi. 


Hoje, como diz aquela canção da Legião Urbana, parece que envelheço dez semanas a cada hora que passa. Já é agosto e ontem foi janeiro. Hoje, já não consigo enxergar muito lá na frente. Minha visão não permite. E nem sei se quero enxergar muito lá na frente. Sei bem o que me espera, e não gosto muito do que me espera.

Envelhecer é ir sendo abandonado aos poucos pelos sonhos, pelos planos, pelo vigor físico, por pessoas que amamos. De repente, você olha em volta e percebe que uma das cadeiras está vazia, que muitos dos seus sonhos não se realizaram, que não há mais tempo de planejar a longo prazo. 

Dá medo? Claro que dá! Se pudesse, retrocederia dez anos. E, a cada dez anos passados, retrocederia outros dez. Mas, como isso não é possível, o jeito é seguir vivendo, um dia de cada vez, sem pressa. Se viver, como disse Simone de Beauvoir, é nada mais que envelhecer, melhor viver devagarzinho. 

5 comentários:

  1. Engraçado esse relato me inspirou a viver, bem pouco mas senti as palavras. Muito bom texto, só espero q toda essa saudade se converta em satisfação pelas coisas q conquistou. Sou bem nostálgico, é ruim as vezes.

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  2. Brilhante! Sintetizando meus pensamentos como quarentona tomadora de Exodus em crise da meia idade. Obrigada! Isso conforta.

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  3. Isso me fez lembrar de uma historia que minha avó lia para mim qdo criança: *a mulher imortal*. Ela fez um pacto com o diabo para viver para sempre. Ia tudo mto bem até q ela viu todos os seus contemporâneos morrerem, quem era mais novo morrer e ... de repente ela não conhecia ninguém mais. Não compartilhava memórias com ninguém mais. Ela ficou tão triste... e só que quis morrer... mas não podia... ela era imortal. :( Só fui entender a moral da história anos depois... quando compreendi o significado da palavra solidão, pois essa era a moral da história. é isso.

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  4. Isso me fez lembrar de uma historia que minha avó lia para mim qdo criança: *a mulher imortal*. Ela fez um pacto com o diabo para viver para sempre. Ia tudo mto bem até q ela viu todos os seus contemporâneos morrerem, quem era mais novo morrer e ... de repente ela não conhecia ninguém mais. Não compartilhava memórias com ninguém mais. Ela ficou tão triste... e só que quis morrer... mas não podia... ela era imortal. :( Só fui entender a moral da história anos depois... quando compreendi o significado da palavra solidão, pois essa era a moral da história. é isso.

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  5. Que belo texto. Parabéns pelo blog. O convido a conhecer o meu também: www.espacopotencial.com.br. Um grande abraço e sucesso!

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